Amigo é um trem danado

84 Amigo é um trem danadoAmigo é um trem danado – de bão. Tanto é verdade que, de vez em quando, eu volto a tratar do tema, sempre que me ocorre um novo viés, um fato que justifique o retorno ao assunto sem dar margem a que amigos mais perceptivos e sagazes venham me dizer que a recorrência é um traço da neurose. Antes que meus queridos amigos me peguem pela palavra, eu mesmo vou dizendo, pra não deixar bola rolando em cima da linha do gol. Assim, garanto que o placar fique 1 x 0 pra mim.

Mas, no duro da cebola, o diabo é que às vezes a gente acaba colocando expectativas demais nos sentimentos que a gente acha que os amigos têm por nós. Isso é uma coisa que vejo ocorrer com freqüência. E acontece que também freqüentemente muitas pessoas, eu incluído, se esquecem de que seus amigos também têm suas fragilidades, suas carências, seus nós precisando de desatar, suas complicações de ordem afetiva, profissional, conjugal, emocional, financeira e tanta coisa mais.

Pois, dia desses, fiquei sabendo de uma passagem de Bastchão Bedurri que me pôs a pensar. Aliás, foi um dos poucos lances importantes do velho pescador que me chegaram por outra pessoa. Geralmente, quando tiro uns dias pra folgar o esqueleto, baixo lá na beira do Rio Doce pra dar umas tarrafadas com ele e saborear a moqueca de cascudo que Dona Neném, patroa de Bedurri, prepara como ninguém. Depois do banquete e do cafezinho, meu velho amigo costuma me fazer um relato das coisas que mais o tocaram, no período em que ficamos sem nos ver. E quase sempre são reflexões profundas, geralmente temperadas com seu fino humor.

Dessa vez, não. Era um sábado de manhã e eu caminhava descalço, bermuda e chapéu de palha, na direção do pesqueiro preferido de Bastchão Bedurri – a sombra de uma enorme gameleira, que já era enorme quando nasci. Eu tinha, primeiro, passado na casa dele, pra deixar uns agrados que sempre procuro levar pro meu querido amigo, e Dona Neném, depois de uns dedinhos de prosa no portão, me disse que seu velho tinha saído cedo pra beira do rio. Pois foi já na trilha que leva à gameleira que encontrei Tõim Cabelo.

– Opa, Tõim.

– Ó…

– Bedurri tá lá na gameleira?

– Tá. Nós proseemo agora.

E então fiquei sabendo que, assim como fazem tantas pessoas lá do interior, meu amigo Tõim Cabelo tinha ido se aconselhar com Bedurri, por causa de uma dificuldade sua com um outro amigo. E Bedurri, antes de fazer o aconselhamento esperado, disse-lhe umas coisas de fazer pensar. É que o Tõim chamara o velho ribeirinho de amigo verdadeiro, como quem diz que, sim, só ele poderia compreender sua angústia:

– Amigo verdadeiro, Tõim, eu ainda não sou nem de mim mesmo, porque às vezes ainda faço coisas que não são boas pra mim. Ser um bom amigo para as pessoas é também um gesto de amor, e amor, como todas as outras coisas, a gente só pode distribuir se tiver. Então, primeiro estou tentando me amar de verdade, compreender e aceitar minhas próprias limitações, ser verdadeiramente meu amigo, pra depois poder refletir isso nas minhas atitudes para com os amigos. Mas me diga lá o que te aborrece. Se eu puder ajudar…

– E o que você disse, Cabelo?, perguntei, com ar divertido, lembrando de tantas coisas semelhantes que o velho pescador já me dissera.

– Sei lá, rapaz. Falei com ele que despois nós conversa. Vou pensar mais um tiquim.

Tõim Cabelo seguiu seu caminho e eu continuei, feliz, na direção do rio. Mais uma vez, a enorme percepção de Bastchão Bedurri se antecipara e matara a charada com poucas palavras. Pelo menos por algum tempo, duvido que Tõim Cabelo vá se queixar de seus amigos e exigir perfeição deles.

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