Armações do Chico Turco

armacoes do chico turco 300x200 Armações do Chico TurcoA vida do Cafiaspirino até que tinha tudo pra ser dentro do programado. Era filho de um cabo eleitoral de importante político e fazendeiro da sua pequena cidade.

Seu pai, leal servidor daquele tradicional líder político, conseguira um emprego para o filho. Coisa modesta, mas o Cafiaspirino nunca tinha sonhado alto, mesmo, de modo que ia levando. Tinha estabilidade na prefeitura, já era casado, tinha dois filhos. Ia de bicicleta para o trabalho.

Gostava da função de escriturário. Sentia-se distinto, tratado com consideração. Pra que mais?

Acontece que a política tem seus caprichos. Bastou uma mudança de prefeito e lá um dia o Cafiaspirino, sem poder reclamar, viu-se subitamente transformado em fiscal do município.

E foi então que conheceu de perto o Chico Turco e sua vida virou um inferno.

Chico Turco era atacadista de secos e molhados. E também varejista. O Baratão, seu comércio, era o maior da cidade, um enorme armazém na beira da linha, quase na saída da cidade, com fácil acesso também ao rio. E o velho Turco, na verdade um libanês com cara de bonachão, tinha uma aversão patológica pelo pagamento de impostos.

Pois logo o calvário do Cafiaspirino virou atração em todas as rodas e fofocas, em bocas de comadres e matildes. Chico Turco, comerciante matreiro e dissimulado, recebia e vendia pelo porto, pela ferrovia e pela estrada de rodagem. E dava chapéu no Cafiaspirino todo dia. O fiscal corria no porto, o movimento acontecia na estação. Cercava na estação, as canoas do Chico Turco cruzavam o rio a noite toda, pra lá e pra cá. Sem contar os caminhões e as tropas de burros.

-Cerca, Cafiaspirino – o povo ria de rolar, diante do desespero do amigo.

-Olha o Turco, olha o Turco – até menino pequeno mexia com ele.

O chefe da fiscalização apertava o Cafiaspirino. O bloco de notas fiscais do Chico Turco durava três, quatro anos.

E acontece que o comerciante tinha lá sua influência na política local, de modo que ou o Cafiaspirino dava um flagrante bem lavrado ou então não tinha jeito. Era capaz de sobrar pra ele mesmo.

Pois uma tarde o Chico Turco armou uma pro Cafiaspirino que fez o atrapalhado fiscal sair de licença prêmio e se internar numa casa de repouso na capital, de onde já retornou transferido de setor.

Chico Turco comprou um caminhão de sacos de açúcar. Lotado até em cima, quase desequilibrando o veículo. Nota fiscal, claro, nem pensar. Quando a carga chegou, chamou um moleque, filho de uma empregada sua, e mandou:

-Molegue viga barado lá no esguina. Vigia. Ze abarece o Gaviasbirina, vem gorrendo avisa antes dele dobra o esguina. Molegue ganha dinheirinha.

O moleque partiu correndo. Chico Turco chamou 10 empregados.

-Disgarega gaminhon.

Quando mais da metade da carga já estava no armazém, vem o moleque, correndo, esbaforido:

-O fiscal, o fiscal.

Chico Turco imediatamente gritou para os empregados:

-Garega gaminhon.

Os empregados estranharam, mas obedeceram. Lá vai a fila, formiguinha, colocando de novo os sacos de açúcar no caminhão, quando chega o Cafiaspirino, cheio de poder e decisão:

-Chico Turco, cadê a nota?

-Gue noda, zeu Doudor?

-A nota fiscal, não enrola não. A mercadoria tá entrando ou saindo?

-Zaindo, Doudor.

-Então, cadê a nota fiscal?

O Turco não perdeu a pose. Fez a maior cara de bobo que sabia fazer e respondeu:

-Uai, Doudor visgal, gomo eu vai dira noda se num sabe guandos zagos de azúgar gabem na gaminhon? Bode deija que, guando agaba de garega gaminhon, Jigo Durgo dira noda bro zinhô. Enguando izo, Doudor doma gavezinho gom bão de gueijo, ahn?

-Não senhor – atalhou o irado Cafiaspirino. -A lei diz que sem nota fiscal a mercadoria não pode chegar nem na calçada do armazém.

Era tudo que o Chico Turco esperava. Fez uma falsa expressão de surpresa, de humildade, de gratidão, pegou as mãos do Cafiaspirino, beijou:

-Doudor, grazas a Deus, se Doudor não avisa, Jigo Durgo gomete grime pelo brimeira vez.

E, agora já com voz de bravo, de patrão, virou-se para os empregados:

-Disgarega gaminhon, gambada de ingombedendes. Num dá vendo gue num bode?

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