Feito gotas de chuva na vidraça

77 Feito gotas de chuva na vidraçaFazia tempo que o homem não encontrava uma oportunidade propícia ao exercício de um velho e caro hábito: o de sentar-se em sua poltrona preferida, na sala de estar, de frente para a janela, num dia chuvoso, e pôr-se a observar, em silêncio, as gotinhas de água escorrendo pela vidraça. Nos últimos tempos, o que mais vinha ocorrendo era ter de sair de casa correndo, com chuva ou com sol, e de retornar na mesma velocidade. Às vezes, trancado no escritório, só percebe a chuva quando, encerrado o expediente, sai do elevador e chega à portaria do prédio.

Mas, dia desses, por conta de um torcicolo que o pôs de molho por três dias, por exigência médica, pôde enfim dedicar-se ao que costuma chamar de sua terapia predileta. Armado de chocolate quente, biscoitos e um generoso cobertor, entregou-se a longos períodos de observação do cair da chuva.

Feito alguém que, em pleno exercício de meditação, tenta esvaziar a cabeça,parar o pensamento ou espreitar a mente, colocando-se no papel de um isento observador de si mesmo, sem julgamentos.

Desde menino, aquele homem traz o hábito de observar a chuva. Tomando a janela como moldura, tenta centralizar os pingos, ou encontrar, neles, seqüências que formem figuras de animais, de objetos, de formas geométricas, regulares ou irregulares, simétricas ou assimétricas. Também tem facilidade para ver, nas filas de pingos que se penduram por instantes ao longo da vidraça, antes que a gravidade as transforme em fiapos d´água que logo desaparecem ante o peso da chegada de outras e outras gotículas, um correr de formigas, um rosário, ou cerca de arame, um céu estrelado, o cintilar dos olhos morenos e brilhantes de Fulana, antigo e inconfesso amor, um carrossel de parque de diversões, tantos e tantos códigos do reino do mágico e do maravilhoso.

E é então que a persona começa a recolher-se, dando lugar à essência do ser, que assim emerge, lenta e pausadamente. Cada imagem vai se associando a um sentimento, uma sensação, um sentimento. Conexões de idéias vêm chegando, trazendo respostas cuja clareza o correr dos dias costuma nublar.

Suas prioridade reais, aquelas que dizem respeito ao mais íntimo de seu ser, aquelas de que às vezes tem dificuldade de conversar até consigo mesmo, vão adquirindo contornos menos cinzentos, diminuindo de peso, liberando o diafragma, permitindo que os pulmões trabalhem em toda a sua plenitude, livres, por instantes, das couraças que o dia-a-dia mantém e reforça.

Também vêm em seu socorro, nesses momentos, sons amigos registrados na memória desde os seus primeiros anos: o das latinhas de conserva que gostava de enfileirar no chão, sob a beirada do telhado, para que as goteiras fizessem soar uma escala musical particular cujas notas variavam de acordo com o tamanho da latinha, sua largura, sua altura, a espessura da folha, o calibre da goteira. Aquela música, então, armazenada na memória, toca-lhe o ouvido interno, conectando-o de vez com as imagens mais profundamente arraigadas na musculatura.

E é assim, então, é que o homem consegue mais leveza, mais insights, mais inspiração e maior facilidade para equacionar e resolver seus desafios do dia-a-dia. E é também daí que tira forças para compreender nossas limitações e nossa pequenez, mas também capta a clareza de saber que cada um de nós é único, portanto diferente de todos, e que o melhor que podemos fazer por nós mesmo é jamais tentar copiar os outros, porque aí estaríamos renunciando à grande jóia com que Deus nos presenteou: o mundo muda, sempre muda, principalmente quando a gente encara com seriedade o caminho do autoconhecimento, tirando os olhos de cima dos outros e voltando nossa percepção para nós mesmos. Então é tempo de crescer.

Conforme já se disse, melhorar-se é melhorar o mundo, vai pensando o homem, naquela manhã chuvosa, em frente à janela. Ainda que, de vez em quando, em meio ao corre-corre do dia-a-dia, a gente se sinta meio que como efêmeras gotinhas de chuva precariamente dependuradas numa vidraça, ao sabor do vento e das rajadas de chuva.

É só impressão, cara leitora e caro leitor. Só impressão. Que bom.

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