Uma arte que morre em seus milhões

casa Uma arte que morre em seus milhõesNão gosto de filmes violentos. Passo longe deles e dos de terror.

As animações, tão em moda, também não me interessam. Coisas de homem velho, talvez. E devo ressaltar que as comédias andam absurdamente sem graça.

As catástrofes retratadas nas telas se parecem menores do que aquelas que enfrentamos na vida real. Por que ir ao cinema, se o noticiário das onze transformou a notícia em entretenimento?

Fora isto abundam romances com gosto de Coca-Cola e épicos alimentados por imagens de computador.

Os protagonistas são rostinhos bonitos e seus corpos foram moldados em intermináveis horas de malhação. E tome nudez gratuita.  E tome torso. E tome peito. E tome silicone.

Muda o filme, mas os atores e atrizes parecem interpretar sempre o mesmo personagem.

Filme de criança e bicho eu não consigo encarar.
Eu, que fui contemporâneo de Lassie e Rin Tin Tim, não sinto atração por estes Marleys e Beethowens que batem recordes de bilheteria e fazem chorar adultos e crianças em todo o planeta.

A última vez que vi – e gostei – de um filme com crianças nos papéis principais foi Stand by Me (1986), dirigido por Rob Reiner e que tinha no papel principal o saudoso River Phoenix. Lá se vão três décadas. Este é um filme que eu voltaria a ver.

Logo eu que ainda tenho um pé em meus primeiros dias e adoro ler autores que bebem na fonte da infância. Nomes como o do poeta mineiro Wilson Pereira, que trata do tema com a mesma maestria que Fernando Botero tratou as suas gordinhas.

O problema talvez esteja na linguagem que não consigo dominar.

Literatura é uma coisa e cinema é outra, eu sei. Nem sempre um bom livro resulta num bom filme. Pouquíssimos roteiros de cinema dariam um bom livro.

Apesar de todo o avanço científico e dos recursos gráficos que recriam cenários fantásticos e multiplicam exércitos sem que o olho mais atento reconheça, parece faltar alguma coisa. Talvez seja o diluimento da vulnerabilidade humana nesta era de tantas informações e o endurecimento da alma.

Pode ser que tenha acontecido uma involução sob a justificativa de que muito antes de ser uma forma de arte, trata-se de um grande negócio. E aí já são outros quinhentos.

Se gasta muito, mas o resultado é quase sempre insípido e previsível. Fazem-se muitos filmes e pouquíssimo cinema.

Diluíram a poesia – e arte sem poesia é fraude – em nome do faturamento, da brutal necessidade do retorno financeiro.

Aqui nos Estados Unidos, resquícios desta arte moribunda podem ser encontrados em festivais menos badalados como o Sundance e o Tribeca, que tem no cinema homônimo de propriedade de Robert De Niro, no Soho, um ponto de referência. Ainda há salas de projeção raras, como o Angélica, em Manhattan e o Bow Tie, em Montclair-NJ. Fora estes, são salinhas minúsculas e decadentes, espalhadas por todo o mundo, com seus carpetes mofados, impróprios para criaturas asmáticas, como eu. Ou os cinemas pasteurizados de Shopping Center, que mostram apenas o que Hollywood produz em quantidades industriais, o que significa muito joio e pouca joia.

O cinema americano é obcecado por perseguições automobilísticas, com capotamentos espetaculares e explosões quase nucleares.

E os clichês de sempre, com forças antagônicas representadas por minorias, geralmente negras ou latinas e suas gangues que espalham violência e medo até serem paradas a bala.

Obviedades como a certeza de que o bem sempre vence o mal, mesmo que sob a bandeira do olho por olho, dente por dente.

Não sei de onde os mocinhos tiram tanta munição para as suas trocas de tiros. Uma pistola de 9 milímetros é capaz de dar quatrocentos tiros, sem que o pente seja trocado uma única vez.

Não entendo também o porquê do parceiro negro do detetive branco, sempre morrer antes do fim.

E tem os espiões russos, os gangsteres dos Balcãs e os terroristas árabes.

No The End, fica aquela certeza de que todos os heróis nasceram na América, e que quem não nasceu por aqui, no cinema ou na real, jamais ganhará um papel principal.

Afinal, a vida sempre imitou a arte, não é mesmo?

Related posts

Comentários

Send this to a friend