Uma mulher que despertou paixões

madeira Uma mulher que despertou paixõesBebia-se muito. Naquele tempo éramos todos muito jovens e o corpo agüentava coisas que não gosto nem de lembrar. Eu mesmo, hoje um abstêmio convicto e radical, fui parar 2 vezes no pronto socorro em coma alcoólico. Um deles durante o desfile do carnaval de Pelotas, onde eu fazia o papel de Princesa do Bloco das Almôndegas.

Modéstia à parte – e apesar do estado etílico – eu estava belíssima, enfiada no pegnoir azul que minha mãe tinha usado na noite de núpcias. Arranquei suspiros na avenida e, máximo dos máximos, conquistei o coração de um velho bêbado. A ponto de ter que pedir ajuda aos amigos para me livrar do admirador que não largava do meu pé, ou melhor, da minha cintura.

Hoje em dia costumo dizer que sou um cara realizado. Posso afirmar com orgulho que não só já fui mulher, como fui uma mulher que despertou paixões.

Não sei de onde vem essa mania de homem se fantasiar de mulher no carnaval. Acho que cada um de nós tem um Clovis Bornay por dentro e não sabe. Não, não venham me dizer que isso é coisa de Pelotas. Em qualquer lugar do mundo, onde tenha carnaval, tem homem travestido.

Tudo não passa de uma grande brincadeira, uma farra. Quando termina a folia, vai todo mundo pra casa, tira a fantasia, veste o terno com gravata e a vida volta ao normal. Quer dizer, pelo menos pra mim foi assim. Tem muitos que pegam gosto pela coisa e continuam. Aí sim, podemos considerar como desvio de comportamento, transtorno de conduta ou veadagem mesmo.

Dizem que J. Edgar Hoover, o poderoso chefe do FBI, gostava de se vestir de mulher. Não sei, não vi, não vou comentar. O cara que era o terror dos bandidos e fiscal rigoroso dos bons costumes do “american way of life” era chegado num batom, numa saia rodada, num salto alto. É o que dizem…

O outro lado dessa moeda, ou seja, mulher vestida de homem no carnaval, não é muito comum. Se eu fosse psicólogo faria um estudo, uma tese de mestrado: porque cargas d’água mulher não gosta de brincar de ser homem? A imagem que elas têm de nós deve ser péssima. Nem de brincadeira passa pela cabeça delas fingir que são como nós, os machos. Muito estranho. São os mistérios da alma humana.

Neste carnaval fiquei quieto aqui em casa, lendo um bom livro, como faço há anos. Já me consagrei, fui uma mulher que despertou paixões. Não vou correr o risco de quebrar esse encanto.

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