Viajando com Hermeto

Capa CD duplo Hermeto Pascoal grupo No mundo dos sons Viajando com HermetoClaro que eu gostaria de comentar cada uma das dezoito gravações inéditas do “senhor bruxo” em seu álbum duplo Hermeto Pascoal & Grupo – No Mundo dos Sons (SESC-SP). Mas como eu tenho limitações quanto ao tamanho do texto, hoje restringirei a emoção e minhas observações a apenas duas faixas do primeiro CD.

Com Hermeto está a turma que, plena do som hermetiano, conta com Itiberê Zwarg (baixo elétrico, tuba e voz), Fabio Pascoal (percussões usuais e inusuais), Ajurinã Zwarg (bateria, voz, percussões usuais e inusuais), André Marques (piano, teclado, flauta e voz) e Jota P. (flauta, flautim, saxes e voz).

Assim, temos um álbum novo de HP muito bem gravado pelo técnico Daniel Tápia, no estúdio Gargolândia. Polidas por Adonias Jr., todas as faixas têm ótimas mixagem e masterização – ajustar tantos sons, sem deixar que nenhum se perca, é trabalho de fino artesanato.

Os discos do fecundo Hermeto permitem contato com um som sem regras nem fronteiras. Ele abre a série de homenagens, dedicando temas instrumentais a quem admira e de quem sente saudade, como “Rafael Amor Eterno” (seu bisneto, neto de seu filho Fábio Pascoal), além de fazer um tributo a São Paulo. E é justamente com esse hino ao amor à cidade que começa a viagem rumo a um extraordinário mundo musical.

“Viva São Paulo!”: mesclando teclado elétrico, piano, baixo elétrico, bateria, sax, vozes e percussões, os sons dissonantes dos primeiros compassos retratam o que seria o despertar do povo que vive e trabalha numa das maiores metrópoles do mundo. Pelas mãos de um grupo atento a experimentações, a aspereza do burburinho das ruas ganha um tema atonal que a representa e identifica. E o alarido segue presente no arranjo com os “desencontros” harmônicos dos instrumentos e a alucinada mistura das percussões. E, até então arritmo, chega o ritmo. Os choques harmônicos do início, agora somados às percussões, parecem simular o ruído das fábricas na periferia paulistana. Sai o ritmo. A agudeza sonora se mantém, causando a impressão de que representa o caminhar apressado de pessoas que mal se veem, apenas seguem, sugerindo que o ir e vir só aumenta… não pode parar. Tem início um afretando, durante o qual ouve-se o alarido dos músicos. Até que um grito de Hermeto soa: “Viva São Paulo!”.

O CD número um acaba com “Som da Aura” (criação coletiva), outra viagem musical tão inusitada quanto bem sacada: cada participante diz uma frase qualquer e se apresenta. Hermeto, por exemplo, abriu a fila dando um gritão: “Então, ah! Estamos aqui na Gargolândia, cara, gravando esse CD maravilhoso, no meio da natureza.” Repetida  a frase, os instrumentistas passam a usá-la como letra para uma nova música, composta de improviso, ali, na hora. Com os músicos tocando as composições recém-criadas, todos se apresentam.

Consigo apenas concluir que ouvir Hermeto Pascoal é enveredar mundo adentro de um criador que, aos 81 anos, fantasia sons com o frescor e a sabedoria de um menino.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

 

 

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