Marques Affonso Correspondente no Brasil
*ENTREVISTADO: CELSO ADOLFO, compositor mineiro de São Domingos do Prata.*
Celso Adolfo é reverenciado como um dos maiores compositores mineiros a surgir depois do Clube da Esquina. Afilhado artístico de Milton Nascimento - que produziu Coração Brasileiro, o primeiro disco - suas canções já foram gravadas por grandes intérpretes da MPB, incluindo neste time o próprio Bituca e Elba Ramalho. Fomos encontrá-lo no estúdio, dando os retoques finais no novo cd, trabalho que aborda a Estrada Real de Vila Rica e tem a participação especial de bambas de diferentes correntes da música brasileira.
Você veio de São Domingos do Prata para BH em 1969. Quais eram os seus planos?
*Eu saí de São Domingos do Prata porque minha mãe, Dona Daíca, mandou. A mãe manda e o filho vai estudar na capital.
No meu caso, assim que desse eu queria entrar no mundo da música. De cara me tornei presidente do Coral da então Escola Técnica Federal de Minas Gerais, hoje CEFET.
Nesse ambiente mantive proximidade com a música e o repertório de canto Coral que o maestro e amigo Roberto de Castro trazia para nós. Ali eu comecei a me ver cantando e tocando violão, arriscando minhas canções. Em 1970, uma delas, “Seu Doutor”, escrita com o meu parceiro da época Emílio Baptista, foi um samba que nos deu dois troféus de festivais da canção. Senti a fisgada, gostei e pensei: vou aprimorar esse negócio de tocar violão e compor.*
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Quais eram as suas condições, saindo de São Domingos do Prata e chegando na capital?
*Na república em que eu morava – éramos 14 estudantes – todos éramos duros e sofríamos as penas da falta de conforto, almoçando quando dava, andando a pé, mas firmes na vontade de estudar e sair para uma vida melhor. E saímos. Para ter um violão por perto eu ensinava ao Jairo Braga o pouco que eu sabia. Dona Amelinha, avó dele, preparava o café da tarde, café salvador, a gente tocava alguma coisa e eu voltava para a república sem violão.*
Você não trouxe um violão de São Domingos do Prata?
*Não. Eu não tinha violão. Domingos André Fernandes, hoje um grande cirurgião, filho de Sô Tacinho, meu primeiro professor de música, me emprestava o violão dele, um instrumento pintado de verde, com cordas de aço, e nele descobri os primeiros acordes. Meu pai era o eletricista da cidade, e, um dia, ele foi mais uma vez chamado para consertar um ferro elétrico na casa de Dona Carmelita, avó de Lelo Zanetti, baixista do Skank.
Ela sabia que eu estava estudando música com Sô tacinho e mandou pra mim um ótimo Gianini antigo que estava guardado há anos com ela. Sô Zequito, meu pai, levou o violão pra casa, colou o tampo, remendou um pedaço e esse passou a ser o /meu violão/. Minha primeira música fiz nele, naqueles idos de 1967, 68, até que Maurício, meu irmão, em dois movimentos desajeitados quebrou o Gianini. O violão ficou irrecuperável. Guardei três pedaços dele, como lembrança, e esses pedaços ficam nos estojos dos meus instrumentos atuais. São amuletos que me acompanham desde 1968. *
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E os famosos bailes, já que muitos músicos não escaparam deles?
*Ainda em São Domingos do Prata eu formei um /conjunto de baile/, “Os Confusos”, com Renato e Paulinho Xavier, Gualter Tiririca, Batista Lellis e Joubert. Em BH, com Jairo Braga, formamos mais dois /conjuntos/. Fizemos alguns bailes, mas isso não me agradava. Eu queria entrar noutra jogada onde eu pudesse mostrar minhas músicas. E isso ainda ia demorar a acontecer.*
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E quando e como isso aconteceu?
*Nos anos 70, no meio universitário de BH. Eu trabalhava no DER-MG desde 1973 (fiquei lá até 1982), e sob as vistas severas mas complacentes do meu chefe Fernando Amaral eu compunha melodias e harmonias mentalmente. Muitas letras escrevi na prancheta de técnico de estradas que eu era, curso que eu fizera na Escola Técnica. Daquela prancheta saíram estradas, mas saíram também “Coração brasileiro”, “Azedo e mascavo”, as revisões de “Nós dois”, “Alçapão preparado” que só gravei agora em 2006 no cd “Voz, violão e algumas dobras”.
O ano de 1976 foi decisivo: Paulinho da Viola veio se apresentar em BH e ele abriu espaço para eu me apresentar pela primeira vez para uma platéia acostumada com os grande nomes da mpb. Ele me apresentava no meio do show, eu entrava trêmulo, doido para sentar naquele banquinho. Foi emoção violenta, de chorar e rir. Saindo dali, cruzando a Av. Afonso Pena, eu falei por Jurani Garcia, meu amigo que cantava comigo também: - Jura, agora vai, agora eu vou nessa. Fui e vim até aqui. *
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Como foram os seus anos em BH, na década de 70 e 80?
*Os anos 70 foram muito difíceis porque eram os tais anos de chumbo. Coisa horrível. Mas no meio universitário eu cantei muito e ganhei uma grana que inteirava meu salário de 450 cruzeiros mensais no DER. Quando se inicia a década de 80 a coisa melhora. Em 82 eu montei o show “Coração brasileiro”, com minhas músicas. Milton Nascimento estava na platéia do Teatro Imprensa Oficial, hoje Clara Nunes, e aí se deu a virada: - Ele gravou “Coração brasileiro” no disco dele chamado ANIMA e produziu o meu primeiro LP, “Coração brasileiro”. Pedi demissão do DER e pus o pé na estrada profissional da música. Com a ajuda providencial de Milton Nascimento.*

Como foi esse início profissional?
*Foi uma mudança maravilhosa. Eu batalhava para chegar nela. Com três músicas gravadas por Milton e por Elba Ramalho e mais uns shows eu comprei um Passat quase zero na mão do Reinaldo, meu compadre atleticano feito eu e gênio do futebol. Os shows apareciam de tudo que é lugar. Afinal, eu saía da toca endossado por Milton Nascimento. Isso não tem preço. Num momento assim, uma ajuda feito essa, bem aproveitada, catapulta o sujeito para lugares e situações antes inimagináveis. Em 88 fiz o LP “Feliz”, já com m eu dinheiro.
Em 1990 lancei “Anjo torto”, o primeiro cd independente gravado no Brasil. Os funcionários da Microservice, lá no Rio, não acreditavam na minha encomenda, e perguntavam se eu era de alguma gravadora, não acreditavam na ousadia de um músico que vivia fora do Rio e de São Paulo encarar uma empreitada muitas vezes mais cara que o LP. Paguei à vista, no pedido, e fui em frente. *
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E a música “Nós dois”?
*Essa é daquelas que a gente acerta e não sabe porque nem como. Mas ela nasceu de uma situação corriqueira, fim de namoro, com suas dores e seus questionamentos. Eu me lembro da cada detalhe de quando eu a compus: - Era o dia 18 de Fevereiro de 1982, eu morava no Ed. Panorama, na Av. Afonso Pena, e num fim de tarde com Vênus e a lua nova reinando no céu azul-chumbo de BH essas coisas de namorada me bateram e comecei a música pelo meio: - Eu na janela, olhando a lua, perguntando à lua...” Pulei a janela, entrei quarto, peguei o violão, achei o início da idéia e em trinta minutos “Nós dois” estava pronta.
A primeira vez que a cantei foi no programa Folhetim, que Tutti Maravilha apresentava na Bandeirantes. Recentemente, fazendo uma turnée pelo norte do Brasil pelo Projeto Pixinguinha, ouvi platéias cantando essa “Nós dois” em Santarém, Boa Vista, Belém, São Luis. E ela não dá sinais de perder sua luz. Eu nada pergunto, sigo os raios dela.*
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E os projetos dos anos 90 e os de agora?
*Em 1995 gravei “Brasil, nome de vegetal”. Em seguida vieram: em 1998, “Festa do Padroeiro”, para minha terra. Em 2003, gravei “O tempo”, sob a forte e gratificante energia dos meus maravilhosos amigos argentinos Sorin, Sol Alac e Ruben Cáceres. Em 2006 gravei “Voz, violão e algumas dobras”, com participação de Samuel Rosa, Leo Minax e Alexandre Az, que estou lançando nesse início de 2007. Ainda em 2007 vou lançar “Estrada Real de Villa Rica”.*
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Esses projetos ainda são realizados com recurso próprio?
*Agora não. São discos patrocinados via Lei Estadual de Incentivo á Cultura, de Minas Gerais. “O tempo” foi patrocinado pela Santa Marta, uma rede de farmácias; “Voz, violão e algumas dobras” pela MSA; e “Estrada Real de Villa Rica” via Lei Rouanet, patrocinado pela Cemig e pela Seguradora Minas Brasil.*
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O que é esse trabalho “Estrada Real de Villa Rica”?
*Esse é disco que mais me tomou tempo e me preocupou até hoje. Levou tempo porque fiz 18 músicas para ele e quebrei a cabeça com assunto tão vasto e perigoso que é a história colonial mineira e brasileira. Preocupou-me porque havia o risco de cair na tentação do lugar comum, havia o risco da pieguice.
E não deixa de me incomodar o fato de ele  entrar num tema que é moda, roteiro turístico mais badalado de Minas Gerais, tema retratado por todas as artes e por agentes profissionais de interesses variados.
Mas fiquei firme na idéia de que /vale o assunto/, assunto muito bonito, cachoeira de poesia e de história. Imaginei pontes, mata-burros, vales, montanhas e história, riachos e rios sem medo de me arriscar na tarefa de cantar Minas Gerais a partir da minha /naturalidade pratiana. /Nascido e criado em São Domingos do Prata, sou vizinho da história, de Ouro Preto, Mariana, Gongo Soco, Catas Altas. Entre tantas coisas que busquei, encontrei a melodia de uma modinha original, descoberta pelo Prof. Domingos Sávio Lins Brandão em Diamantina, modinha do século 18. Fiz uma letra no feitio da poética de Tomaz Antônio Gonzaga. Gravei essa modinha acompanhado de cravo, baixo acústico, violino, flauta doce e flauta transversal. Não encontrei quem tocasse o traverso. Isso coroaria o respeito à tradição. No mais, “Estrada Real de Villa Rica” tem batuque, tem folia, tem catopê, tem cateretê, tem alegria. Tudo isso sem contar a capa, que será especialíssima. O lançamento será ainda em 2007.*
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