O presente está vivo em Fio da Canção, CD autoral de Carlos Walker e Lúcio Gregori

Antes de qualquer outra coisa, ao ouvir o CD independente gravado por Walker, carioca de nascimento, mas paulistano de coração, e pelo paulistano Gregori impressionam a voz e as letras do primeiro e as composições do segundo. Principalmente a voz do cantor, ela que fala ao coração de quem escuta os múltiplos ritmos das músicas escolhidas como repertório do álbum.

Neste, sente-se que em cada nota há um fiapo de luz atado, lumiando o tocar, e que cada vez que o tempo galopa dentro da noite ou do dia, um fio contorna a silhueta da vida e traz à tona a música que deságua no hoje e no amanhã.

Em Fio da Canção, CD de dois músicos tão competentes quanto veteranos, todas as faixas são inéditas e compostas em parceria pelos dois. Mas o fio que enlaça a música de Lúcio Gregori e Carlos Walker não é figurado. Ele, o fio, tem nome, sobrenome e apelido: Laércio de Freitas, o Tio.

Tudo começa com “Depois da Tempestade”. À introdução, tocada pelo Quarteto Portinari (dois violinos, viola e cello), segue-se o som das flautas. Logo vem o piano, em seguida o violão. Na segunda parte entra a cozinha. E o piano dedilha notas soltas até que venham os sopros (sax, trompete e as flautas). Tudo tão bem orquestrado e interpretado que se tem a certeza de estar diante de um trabalho de fôlego, muito bem mixado.

O repertório traz canções e sambas, bossas e valsas. Contudo, são as primeiras, as mais suaves, que dão à voz de Carlos Walker a oportunidade de revelar-se mais instigante e de se esbaldar em personalíssima performance, na qual seus agudos se rivalizam em precisão e afinação com seus graves redondos e claros, estes revelados, notadamente, em “Dia Que a Noite Deixou” – samba lento, no qual as cordas e a flauta, amparadas pelas vassourinhas na bateria, revelam a delicadeza da melodia e o apuro da harmonia desenvolvidas pelo talento de Gregori. Aliás, as músicas de Gregori são plenas de nuances e de criatividade, o que as torna especialmente sedutoras e ricas. Dois parceiros a complementar e a multiplicar suas aptidões.

“O Fio da Canção”, samba lento que dá título ao álbum, tem cordas e o piano em doce sintonia, resultando em mágico lirismo. Aqui os agudos de Walker se fazem tônica e dominante. Sua voz, aliás, tanto pode nos remeter a Mário Reis (ao cantar, por exemplo, “Mora na Questão”) quanto a Alaíde Costa (quando canta pungentemente “Choro do Tempo”, tendo a acompanhá-lo apenas o piano de Laércio de Freitas – e pra quê mais?)

Em “Valsa da Onda Que Volta”, o cello e o piano encarregam-se de dar vida à harmonia emoldurada pela bela melodia abrigada na voz de Ná Ozzetti, que divide o canto com Walker num CD onde o vento balança o fio que une a poesia das palavras à graça das melodias. E, juntas, viram bela música cantada e atada a um futuro a ser construído a cada minuto do agora, imediatamente.

E o presente está vivo na música de Fio da Canção.

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