Em seu novo CD, Marcos Sacramento reafirma ser um grande intérprete

Cantor cuja personalidade evidencia que tudo o que canta vem à luz com significado e alma, Marcos Sacramento é o que diz Caetano em “Genipapo Absoluto”: “Pois minha mãe é minha voz/ Como será que isso era/ Este som/ Que hoje sim/ Gera sóis dói em dós.”

Com estas palavras, finalizei meu comentário sobre A Modernidade da Tradição, CD lançado por Sacramento junto com Maurício Carrilho (violão) e Marcos Suzano (percussão) em 2008.

Hoje, ao ouvir Na Cabeça (Biscoito Fino), no qual ele canta com o apoio de três violonistas virtuosos e grandes arranjadores – José Paulo Becker (violão de seis cordas), Rogério Caetano (violão de sete cordas) e Luiz Flávio Alcofra (violão de seis cordas) –, reafirmo: Marcos Sacramento é um esplêndido intérprete. Tem afinação, tem suingue; sua respiração se integra às divisões rítmicas, sempre de muito bom gosto; seu vibrato, usado com parcimônia, acentua a emoção presente em cada frase que canta. Um baita cantor.

Em Na Cabeça, ele gravou duas músicas com letras dele – uma, a que dá título ao disco, em parceria com Luiz Flávio Alcofra; outra, “Um Samba”, com Carlos Fuchs, o produtor do CD.

As palavras de Marcos Sacramento vêm da verve de um intérprete que sabe o que precisa ser dito, para mais bonito soar cada palavra embalada por notas que traduzem criatividade. Palavras expostas em tempos e em contratempos. Palavras descritas em compassos e em descompassos, em pausas e em cantos; de claras intenções, com fusas, semifusas e irrefletidas fragilidades.

Sacramento, Zé Paulo (autor de cinco arranjos), Luiz Flávio (três) e Rogério (quatro), fazem música em sintonia com o tempo presente, muito embora conectada ao que nos foi legado por um passado tão rico, tão belo.

Muito bem mixados, os sambas chorosos, “Pavio” (Luiz Flávio Alcofra e Sérgio Natureza) e “Calúnia” (Luiz F. Alcofra); os sambas buliçosos, “Canto de Quero Mais” (Zé Paulo Becker e Moyseis Marques), “A Rosa” (Chico Buarque) e “Morena” (Mauricio Carrilho e Paulo César Pinheiro), ou os clássicos, “Sim” (Cartola e Oswaldo Martins), “Minha Palhoça” (J. Cascata) e “Último Desejo” (Noel Rosa), a voz e os violões – com improvisos divididos com sabedoria entre cada um dos três – se misturam em preciosas combinações de timbre, levada, harmonia requintada e talento.

Em Na Cabeça, as dezenove cordas são tangidas por seis mãos que lhes dão sabor como se fossem um regional completo. Mãos ágeis e abertas a sonoridades brasileiras contemporâneas. Quase vinte cordas submissas ao talento de quem delas extraem o que só os grandes mestres conseguem arrebatar. Mãos e cordas atentas ao samba que repercute e vibra, que soa e balança e cadencia e se faz popular.

A voz de Marcos Sacramento aquece em sol, vibra em bemol, soluça em dó, avança, não cabe em si… Transborda na aurora e ressurge na tarde que antecede a queda da noite, doando ao dia o que nasce sempre que o céu muda de cor.

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