O tempo da delicadeza de Ana de Hollanda

Só na canção (CPC-UMES) é o CD no qual Ana de Hollanda se revela boa letrista. Ouvi-lo é como escutar uma carta de delicado amor – carente, às vezes; sentimental, noutras; emocionado e bem-humorado, sempre.

Os parceiros de Ana, antes de mais nada, são seus amigos. Gente competente que se revezou na missão de prover de melodia os seus versos. E a unidade do repertório sobressai nesse companheirismo revelado plenamente no conteúdo do trabalho.

Alguns deles tocam os arranjos do pianista Helvius Vilela, ele mesmo parceiro de Ana em três canções; enquanto que o contrabaixista Novelli criou melodias para duas de suas letras. Com o baterista Fernando Pereira e o violonista Mauricio Carrilho, ele que é também o produtor artístico do álbum, os dois integram uma base instrumental digna de grandes intérpretes.

Ana de Hollanda tem um fio de voz. Mas seus agudos e seus falsetes são nítidos e afinados, como em “Por Si Só” (Nivaldo Ornelas e Ana). As divisões rítmicas vêm sempre providas de bom senso, não estivesse ela cantando versos que criou para revelar a sua veia poética.

As palavras se deixam levar pelas ideias da compositora. Feitas parceiras dos sonhos da mulher que revela sentimentos plenos imagens, as palavras se fazem versos com musicalidade própria. Para quem está debutando como letrista, Ana de Hollanda brilha e mostra que ao seu ofício de cantora somou mais recursos.

Ana é emocionada, e o som de um disco tão bem gravado permite que isso fique claro. Mesmo com sua voz em primeiro plano, o que é recomendável, os instrumentos têm merecido relevo na mixagem.

Assim é, por exemplo, em “Beija-Flor, Colibri” (Novelli e Ana), um dos momentos especiais do álbum, quando o piano de Helvius Vilela, a flauta de Naomi Kumamoto e o cello de Hugo Pilger soam como se fossem os solistas. Harmonia perfeita entre o cantar e o tocar, este é um dos segredos da graça do disco de Ana de Hollanda.

Bom também é “Estrada da Vida” (Helvius e Ana), quando seu parceiro, com voz grave de não cantor, divide o canto com ela; e também a divertida cantoria de suas irmãs Cristina Buarque e Piii, em “Balada” (Jards Macalé e Ana).

Noutro momento de emoção, os destaques são a viola de 10 cordas de João Lyra, e Lucina arrasando ao cantar com Ana a parceria delas “Jogos de Azar”. “Novo Amigo”, outra bela música de Novelli e Ana, realça a sonoridade das cordas, somadas ao clarinete e ao piano.

Em “Choro Por Um Silêncio” – delicada canção que Ana compôs sozinha –, o baixo e a bateria tocam como se não quisessem interferir no que já está, de fato, tão belo, enquanto que o piano e o violão se juntam a eles para acrescentar ainda mais beleza aos versos: “E por que não cintilar/ Arriscar todos os tons/ Harmonias ou amores/ Aventuras sem perdões?”.

Ana de Hollanda pergunta e a resposta está em Só na canção, CD que ainda mais engrandece a trajetória desta cantora que faz de sua música o tempo de todas as delicadezas.

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