A estética musical libertária do Duofel

Sempre suspeitei que instrumentos da mesma origem têm inveja dos pequenos detalhes que os diferenciam: o que tem o som mais agudo lamenta não atingir o som grave de outro, o de maior tamanho maldiz não ser tão portátil quanto o de talhe reduzido etc.

Mas imaginem a cena: frente a frente, violão de aço de seis cordas, violão de nylon de seis e de doze cordas, violão tenor e viola de dez e de doze cordas. Olham-se. Questionam-se. Cada um idealizando ser melhor do que o outro. Caberá ao violonista o papel de instigá-los à competição ou a conciliá-los? Contemporizar ou instigá-los ainda mais?

Pois o Duofel dá de ombros para tal possível vaidade. Junto com seus instrumentos, vai em direção ao desconhecido a ser desvendado para mais prazerosamente ser tocado. Mas saca que só isso não basta para obter um melhor som. Para tanto, há de se tê-lo como a uma flor, sentindo-lhe o aroma no amanhecer orvalhado. Há de se ter cuidados de parteira.

E assim são Fernando Melo e Luiz Bueno – o Duofel: parteiros do som de suas cordas, jardineiros de mãos possuídas pelo poder de recriar o que já é belo, tornando-o não só belo, mas irrefutável.

Duofel Plays The Beatles (FineMusic) é o seu novo álbum. Ao ouvi-lo, vê-se que as tantas homenagens que muito justamente estão sendo prestadas a John, Paul, Ringo e George resultariam incompletas, caso o Duofel não revelasse o que tem a tocar sobre eles.

A cada faixa uma recordação, e, principalmente, um novo olhar sobre o que fez dos Beatles um mito musical e comportamental – a atitude irreprimível dos quatro ingleses foi quase tão importante quanto suas músicas. E o Duofel foi fundo nesse entendimento.

Aos solos das melodias quase sempre se seguem fraseados nos quais pontificam ardorosos bordões, uma das marcas registrados do Duofel. Levadas da mais pura e explosiva pop music reconstroem “Eleanor Rigby”, “The Fool On The Hill”, “A Day In The Life”, “In My Life” e “Norwegian Wood” (Lennon e MacCartney).

A boa utilização de recursos incomuns faz igualmente parte do DNA sonoro de Luiz e de Fernando. Há, por exemplo, o “frouxolão”, que consiste em afrouxar a sexta corda do violão de nylon, deixando-a quase totalmente solta, afinada duas oitavas abaixo; e o “zig-zum”, pequena vareta de jacarandá, meio abaulada, que, passada por entre as cordas do violão, tira um som similar ao da rabeca, cujo arco é usado também no violão e na viola. Tudo registrado com ajustada mixagem.

Além de mostrar que os Beatles compunham e cantavam canções com jeitão sertanejo, “descoberto” em “Across The Universe” (Lennon e MacCartney), em “Here Comes The Sun” (George Harrison) e “Mr. Moonlight” (Roy Lee Johnson), o experimentar de Fernando e Luiz resulta em dinâmicas, em variações de andamentos, em contrapontos, em supimpas afinações, em sacada de novas timbragens, em improvisos e em solos certeiros.

É o Duofel tornando definitivo o seu destino de reinventar sons insonháveis.

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