O cara que canta sorrindo

“Cercado por quem comunga de seus mesmos ideais e de suas mesmas ideias musicais, Wilson Simoninha lançou o CD Melhor (gravadora S de Samba). Caprichando na diversidade de criar e cantar samba, ele dá tudo de si. E o tudo que dele vem é de uma espantosa vocação para contagiar o ouvinte. Difícil ouvi-lo sem ao menos um meneio de ombro, um mexer de cabeça, um sorriso, um batucar de dedos na mesa.” Este é o parágrafo com o qual iniciei meu comentário sobre o CD lançado por Simoninha em 2008. Valho-me dele novamente para abrir esta resenha sobre o seu recém-lançado Alta Fidelidade (S de Samba).

Assim como Melhor, Alta Fidelidade é um álbum coeso, fruto de uma concepção musical baseada em primeiro lugar na força da levada mais adequada a cada composição gravada. O nexo resulta do acerto de cada descoberta: a cada samba o seu batuque; a cada levada o seu arranjo; a cada instrumentação uma interpretação que a tudo valoriza.

Três técnicos de mixagem dividem o trabalho nas doze faixas do álbum. O que, ao misturar concepções sonoras, poderia ser uma tremenda cilada, mostrou-se altamente eficaz: cada um sabe exatamente o que quer e o que dele se espera. Em Alta Fidelidade não há nota que não se escute, não há som que não se ofereça límpido.

Com sambas irresistivelmente cheios de bossa, o coro come nas quatro primeiras faixas: “Meninas do Leblon” (João Sabiá e Simoninha) tem uma cozinha pulsante a embalar o naipe de sopros e a participação de João Sabiá no canto e no violão.

“Quando” (João Marcello Bôscoli, Marcelo Lima e Simoninha) mantém o naipe de sopros (marca registrada do disco) e a força da levada rítmica.

“Qual É o Meu Lugar (Menina)” (Simoninha): lá estão os sopros e a cozinha suingando.

“Versos Fáceis” (Simoninha). O teclado puxa a introdução, o baixo pontua, a bateria pulsa forte, os sopros dão charme ao arranjo.

“Nós Dois” (Mu Chebabi e Simoninha) abre com teclado. O clima é delicado. A bateria entende o clima e pisa leve.

O samba volta a suingar em “Morena Rara” (Edu Krieger e Simoninha) e “Quebra” (Mu Chebabi e Simoninha). Irresistíveis.

Jair Oliveira está presente com o bom samba “Falso Amor”, justamente o que não tem Simoninha como parceiro.

“Distraído” (Simoninha) é um samba lento em que a bateria, o piano e o baixo conduzem até a chegada dos metais. Outro bom samba lento é “Paixão (Meu Time)” (Simoninha e Carlos Rennó), com direito a Órgão Hammond soando à la anos 1960.

O tamborim e o piano iniciam “Pois É, Poeira” (Bernardo Vilhena e Simoninha); o balanço inquieto do piano reluz num belo intermezzo. Após um tacet no ritmo, ficam tamborim e piano e a voz de Simoninha…

Um cantor intenso, com voz cheia a lhe brotar sorridente do peito, tão alto astral como a música que canta. E como canta o Simoninha! Canta como quem atrai as delícias do mundo, minha nega; seduz como se perguntasse: o que será do amanhã sem o canto que arrepia os pelos e sem o suingue que remexe as cadeiras da morena? Ah, essa mulata quando sorri é luxo, balanço, picardia e malemolência só. Substantivos estes que bem adjetivam o talento de Simoninha.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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