O porta-voz da turma

Em São Paulo, devagarinho, assim como quem não quer nada, mas querendo tudo a que tem direito, uma nova geração de músicos vem comendo o mingau pelas beiradas. São compositores, cantores e instrumentistas que conhecem e sabem música, e que interagem entre si, numa solidária mescla de competências.

Dá gosto ouvi-los. Ouvir o que têm a dizer sobre coisas que para a minha geração já estão cristalizadas, por isso até então não havíamos atentado para outras variantes. A harmonia com o passado musical resulta num presente carregado de modernidade e brasilidade, e projeta um futuro onde o talento haverá de prevalecer sobre a banalidade.

A turma deles é da verdade (assim como já cantamos que foi a nossa), e a verdade vai vencer. Embora não saibamos ao certo que “verdade” seja essa, pode-se suspeitar que ela é feita de sabedorias postas em pentagramas e versos e que nos permite crer que a emoção com qualidade é o que importa em nossa fugaz passagem pela vida.

Tudo isso para falar de um representante dessa nova geração musical: Pedro Viáfora. Compositor, instrumentista e cantor, ele integra o bom grupo 5 a seco, um fenômeno de sucesso a partir das redes sociais.

Feliz Pra Cachorro (independente, com apoio do ProAc) é o seu primeiro CD. Com onze faixas, sempre escrevendo as letras para os parceiros Paulo Monarco, Pedro Altério, Leo Bianchini e Caê Rolfsen, Pedro, entretanto, cede a vez de letrista para Celso Viáfora e musica os versos do pai.

“Não dê Bobeira”: Paulo Monarco, que está ao violão, fez a melodia, e Pedro, os versos. As guitarras, somadas aos trombones, ao baixo elétrico e à bateria, criam a levada para o pop roqueiro.

“Alguém Dirá” (Pedro Altério e Pedro Viáfora) tem na sanfona sua marca. A bateria pulsa a bela melodia, impregnando-a de frescor.

“Feito Nós” (Pedro Viáfora) tem letra que aponta um futuro promissor para o poeta que cresce a cada ideia: Somos feito nós/ Se a ponta achar, os dois ficam sem voz/ Embaraçados, feito nós. Pedro, na verdade, é como um porta-voz da geração da qual fazem parte Dani Black e Maria Gadu, dentre outros.

“Feliz Pra Cachorro” (Pedro e Celso Viáfora), boa música que tem a guitarra de Dani Black (como ele toca, meu Deus!) e letra com o DNA do grande compositor que é Celso Viáfora.

“Nem Terminou” (Pedro e Celso Viáfora) tem arranjo bem sacado por Celso: duas formações instrumentais diferentes se revezam ao longo da música. Com a primeira, acústica, Pedro canta com baixo, piano, bateria e sanfona; na segunda, eletrônica, Celso sola sobre baixo elétrico, bateria e violão de aço. E assim, como em círculo, vai a canção, e a diferença de sonoridade e das vozes dá a dimensão de uma composição que se renova, sem ponto final…

Acostumado desde pequeno a ouvir boa música, Pedro Viáfora mixa os sons que ouviu com o que faz hoje. Letras poéticas, harmonias e levadas suingadas levam suas criações à certeza sublime de que a música brasileira, graças a músicos como ele, revigora-se sempre e mais.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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