Longa é a arte…

Desde que recebi o CD Canções na Roda – Renato Rocha & Cia. Iltda. (independente), dedicado por Renato a Hermínio Bello de Carvalho, fiquei matutando como descrevê-lo, já que não é um álbum comum nem um produto a ser visto como pertencente ao mercado fonográfico.

Apesar de saber que desse músico, compositor e escritor nunca se deve esperar algo corriqueiro – pois Renato (autor, dentre outras, de “A Lua” e “Dia Branco”, esta em parceria com Geraldinho Azevedo), sempre instigado a tocar por ânimo e ânsia de seu talento, tem a ampará-lo uma inquietude quase juvenil, continuamente envolta em moderna fluidez –, eu, ainda assim, embatuquei.

Mas então o que é o disco Canções na Roda? Ora, em sua audácia, ele é quase indecifrável. Sua abrangência tem uma dimensão que escapa de paradigmas preconcebidos. A música que ali se ouve carece um novo modo de apreciação, já que, ainda que gravada amadoristicamente (viva os amadores, os que criam por amor), carrega em si riqueza melódica e poesia inteligente.

Graças aos avanços tecnológicos, Renato foi buscar dezesseis gravações e “demos” tão caseiras quanto adormecidas no berço nada esplêndido de uma gaveta. E como se, após 25 anos, ainda aguardassem a chegada do futuro para despertar e virem à luz, deu-lhes condizente tratamento digital, remixagem (a cargo de Carlos Fuchs) e masterização (por conta de Marcelo Hoffer), até que renascessem diferentes, porém iguais em sentimento e criatividade.

Para ajudá-lo na tarefa, Renato Rocha contou ainda com o apoio dos parceiros Geraldo Amaral, Geraldinho Azevedo, Ronaldo Tapajós e de JCMello (responsável pela arte da capa).

Para uma melhor noção do que conduz o CD, transcrevo o comentário de Renato sobre a música “Arte Longa”, feita em parceria com Geraldo Amaral, tocada ao violão por Geraldo Azevedo e cantada por Amaral (RR, aliás, tece comentários ilustrativos sobre cada uma das canções do repertório): “Composta em 1983, gravada em 1984. É a faixa com mais problemas e uma das mais emocionantes. Há de tudo nela, vazamentos, trechos de fita esticada, pré-ecos, excesso de reverber, sílabas que distorcem, sim, mas, e daí? – isso é problema da captação, e não da interpretação candente do Amaral, que estava com a canção na ponta da língua. É como se a autenticidade do canto transformasse a chiadeira numa espécie de sonoplastia natural dos insetos do sertão profundo”.

Finda a audição, percebe-se que a frase “Longa é a arte, breve a vida, difícil o juízo, fugaz a ocasião (…)” faz mais sentido do que nunca. No instante fugaz de cada composição recuperada, nota-se a vida que dela brota e que a mantém vívida e pronta para a posteridade, lugar apropriado para a boa arte. A cada juízo de valor do que se tem diante dos ouvidos, a certeza de que não há “sujeira” técnica que não sucumba a altas doses de vivacidade artística. Difícil não se encantar com algo que tem como missão perpetuar a naturalidade musical de um autor e dos seus parceiros de fé.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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