O grande Ayrton Montarroyos

Capa CD Ayrton Montarroyos O grande Ayrton MontarroyosEu nunca tinha ouvido falar do cantor recifense Ayrton Montarroyos. Mas inesperadamente ele me veio à mão. Com uma capa que traz uma pirâmide de letras desenhadas sobre um fundo dourado, na qual seus nome e sobrenome se revelam da base ao topo:

A

YR

TON

MONTA

RROYOS

 

Acima da pirâmide dourada está a relação dos compositores gravados por Montarroyos. Do lado direito, o pedaço de uma pedra ancestral. Acima, à direita da pirâmide, o logo da Kuarup (gravadora). Logo abaixo, o fragmento inicial da letra do “Hino às Musas” (deusas do canto), de Esildo. Abaixo da pirâmide, no canto direito, está o título do CD, em forma de uma onda que nasce e cresce para cima: Um Mergulho No Nada.

A começar pela capa, o trabalho do Ayrton Montarroyos é todo feito de minúcias, detalhes que se ajuntam e inebriaram a cabeça deste “diqueiro” (aquele que dá dicas) que vos escreve. Tonteado, mas não na lona, sinto-me diante de um lapidador de música, um gerador de luzes a alumiar almas desconsertadas, um desbravador de trilha aberta nas veias do sonho.

Para tal façanha, Montarroyos formou, com o competente e virtuoso violonista de sete cordas Edmilson Capelupi, a maior orquestra do mundo: voz e violão soando como mil e um instrumentistas e como um coral de mil e um deuses da música.

Gravado ao vivo no Teatro Itália, em São Paulo, por Boris Pinheiro, graças a ele e à mixagem de Felipe Pacheco Ventura, à masterização de Ricardo Prado, à produção de Thiago Marques Luiz e à concepção dos arranjos de Ayrton e Edmilson, voz e violão são ouvidos sem rasuras nem sobressaltos.

“Pé na Estrada” (Ylana Queiroga), “Sem Pressa de Chegar” (Capiba e Delcio Carvalho), “Jabitacá” (Junio Barreto, Lirinha e Bactéria), “Mar & Lua” (Chico Buarque), “Açaí” (Djavan), “Dona Divergência” (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins), “Sodade Matadera” (Dorival Caymmi), “Brigas Nunca Mais” (Tom e Vinícius), “Doce de Coco” (Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho) e “Cálice” (Chico Buarque e Gilberto Gil) – destaque para “Mar e Lua”, “Sodade Matadeira” e “Pé na Estrada” – brotam frondosas, com frutos em penca, postos ao alcance de ouvidos famintos para aguçarem seus delírios.

Dez músicas que Ayrton canta como se fosse fácil, de forma simples e encantadora. Firme, mas suave, afinado, doce e sem pressa de chegar ao fim, sua voz se atira em direção ao sete cordas, amalgamando-se com ele, que passa a protegê-la.

Cá com meus botões, busco algo que revele o que é a voz de Montarroyos. Mas simplesmente nem tudo nem nada o enuncia, nem o exprime: Ayrton é intraduzível. A voz que lhe sai do peito parece nascida à imagem e semelhança de um deus do cantar.

Com seu inequívoco talento – voz diferençada, afinação maiúscula, ritmo expresso em suingues e personalidade evidentes –, já sobejamente demonstrados nesse segundo CD, eu o levarei comigo pelo tempo que ainda me couber… imaginando qual o dia em que tornarei a ouvir um novo disco de Ayrton Montarroyos.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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