A solidão dos domingos

Ontem foi domingo. Um domingo plúmbeo, que nem de longe se deixou transparecer um domingo de verão. Quase enlouqueci.

Acho que o fato de ter sido véspera de feriado também ajudou, transformando as ruas de Kearny num pavilhão de escombros. Fiquei inconsolável com o panorama que se desenhou diante de meus olhos.

Da janela do apartamento, vislumbrei o manto cinza que cobria a tarde, trazendo a reboque a lembrança de muitos outros domingos melancólicos de minha vida.

Sempre vi o dia em que Deus descansou de uma forma morna, ressaqueada, como se algo tivesse se quebrado, ou reerguido das cinzas, dentro de mim.

Essa foi sempre a percepção.

Em alguns domingos, penso que o mundo vai se esvair em marasmo e melancolia.

Em 1986, aos 23 anos de idade, escrevi um livro de poesias, que batizei de “Tango Fantasma”, título de um dos poemas da obra.

No poema aludido, eu falava exatamente da solidão de um domingo qualquer, que nascia parido da solidão de outros tantos domingos, e de um sujeito que perdera a esposa e a amante durante um único ciclo de sete dias.

A primeira mulher, ele perdera para a crueldade da solidão convivida.

A segunda, para um profissional liberal que havia contratado para cuidar do caso de sua separação com a primeira. Modernoso, triste, probabilíssimo…

Lembro-me que escrevi esse poema num domingo à tarde, após retornar de um almoço na casa do poeta Marcos Pizano.

As ruas de Governador Valadares estavam desertas e, tão logo tomei o ônibus para o bairro de São Raimundo, tive uma forte impressão de que havia entrado num trem fantasma.

Apenas o motorista e o trocador fizeram-me companhia durante toda a viagem, o lotação saltando feito um cabrito ensandecido sobre a estrada esburacada.

No alto-falante do teto do ônibus, a voz de Chico Buarque cantava:

“Ó pedaço de mim ó metade arrancada de mim”…

Cheguei em casa aos frangalhos, sentindo o peso de uma barra pesadíssima que aquele domingo implacável havia jogado sobre mim. E nunca mais me curei.

E assim continua sendo, tanto tempo depois, os domingos se repetindo com os mesmos contrastes, escrevendo minha história com pedaço de carvão sobre uma superfície de pedra.

Para mim, o domingo será sempre feito do programa Globo Rural, tendo, na sequência, Rolando Boldrin apresentando modinhas de viola e contando “causos” no Som Brasil.

Meu domingo terá Ayrton Senna da Silva, incólume com seu macacão e capacete impecavelmente limpos, ultrapassando mitos, acelerando seu nome nas páginas do esporte.

Afinal, domingo sem Galvão Bueno cuspindo bairrismos ao microfone serão ilegítimos.

E é por isso – e por muito mais -, que meus domingos serão sempre de almoço em família.

Domingo de irmã chegando com filho pequeno no colo, de mãe mexendo a comida no fogão, e de sobrinhos indomáveis correndo pela casa, como se ali fosse o pátio da escola durante o recreio.

Meus domingos foram, são e serão, sempre, de macarronada, de frango assado com farofa, de empadão de camarão, e de salada de legumes cozidos com maionese.

Meus domingos terão Sílvio Santos na televisão:

– Quem quer dinheiro?

Terão, também, partidas de futebol, cerveja espumosa transordando pelos copos e escorrendo em rios que jamais desaguarão em lugar algum.

Serão domingos de clássico no Mineirão, sem nenhum grito de gol que nos redima e reconduza à glória. Domingos como os de sempre, com folhas de jornal previamente lidas, amassadas, levadas pelo vento através das tardes abandonadas.

Esse abandono com cara de ‘nunca’, semblante de ‘jamais’ é igual para todos nós. E ele se repete semana após semana, e tem o gosto requentado do jantar de ontem.

Sabemos, sempre, que o próximo virá vestido de um até breve e, como este que agora escorre entre nossos dedos, terá trejeitos decadentes de fim de festa. E essa é a nossa única certeza.

O fim da festa, moça. O fim de tudo, rapaz.

O viver verdadeiro, pleno e feliz, esse quase-milagre, só chegará amanhã, com o clareamento do dia, o corre-corre dos transeuntes e as buzinas dos automóveis nos ensurdecendo pelas ruas.

Segunda-feira não é mais o fino da fossa.

Segunda-feira é o berço da ressurreição da raça humana.

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