Piquenique nas alturas

A American Airlines vai cobrar pela comida em seus vôos. Ao que parece, a moda vai pegar, pois já existem outras companhias aéreas aderindo.

Já faz um bom tempo que começaram a cobrar pelas bebidinhas. O que é uma lástima. Dizem que é para baratear o custo da passagem.

Quem disfarça o medo de voar com um uisquezinho por conta da casa, perdeu a vez. Conheço gente que ficava literalmente “alta” durante os vôos. Hoje, é recomendável levar dinheiro.

Muito dinheiro e, de preferência, trocado.

Os comissários de bordo reclamam sempre da falta de troco. E são 4 dólares a dose.

A boa notícia para aquele que quiser amarrar um pilequinho durante a viagem é que nem precisa passar antes pelo banco e fazer uma retirada.

Eles aceitam cartão de crédito. Todos.

Quando vim pra cá pela primeira vez, em 1984, a bordo de um boeing da Panam fiquei impressionado.

Logo de saída (ou seria à entrada?), deram-me uma simpática bolsinha contendo objetos de higiene pessoal em miniatura: pente, escova de dente, creme dental, barbeador, creme de barbear e outras cozitas mais. Achei o máximo.

Duvido muito que aquelas bolsinhas tenham causado a falência, daquela que era a maior companhia de aviação comercial do planeta.

Muito antes da histeria antitabagista e do prefeito novaiorquino Michael Bloomberg, dava até para dar uns tapinhas num inocente cigarro. Havia uma seção destinada aos fumantes no fundo da aeronave.

Era um fumacê incrível, democrático, civilizado. E tudo liberado, o que abolia aquela ameaçadora plaquinha de sinalização dos banheiros de hoje: “se fumar aqui dentro paga multa, vai preso, pega câncer, seu time perde, a mulher foge com o vizinho…”

Antes do jantar, entregavam uma toalha de pano quente, felpuda, para a higienização do passageiro. Com o tempo virou um lenço de papel, que já chega morno às mãos do freguês.

Com os atentados do 11 de Setembro proibiram a utilização de talheres metálicos. É um sacrifício, um malabarismo, cortar um bife com uma faca de plástico. Mas, em nome da segurança, e do precedente aberto, faz sentido.

O que não faz sentido é cobrarem pelo lanche.

A comida servida a bordo das aeronaves nunca foi lá estas coisas, mas deveria fazer parte do pacote.

Nos vôos domésticos, aqui nos EUA, esta medida de contenção de despesas não vem de agora.

Num vôo Newark-Miami, por exemplo, servem uma sacolinha de amendoim e uma lata de refrigerante. Se o amendoím é gratuito, o uso de fones de ouvido, não.

Quem quiser assistir o filme escutando o som, tem que pagar 3 dólares. Se não pagar, é remetido aos tempos de Charles Chaplin.

Nos vôos internacionais já são mais generosos e distribuem um saco plástico contendo uma máscara para vedar claridade, e dois chumaços de matéria sintética – dois pequenos pinos de isopor, se não me engano – para obstruir os ouvidos.

Deve ser para o passageiro manter a postura de quem não viu nada. E escutou muito menos.

Dia destes, levantei-me para ir ao banheiro durante a madrugada em um vôo New York-Rio, e tive uma incontível crise de riso.

Espremidos nas poltronas diminutas, um exército de Zorros protagonizavam uma cena digna de um filme Trash. Parecíamos ter embarcado num vôo da Bizarro Ailines, pilotada por Don Diego de la Vega.

Tão insólito quanto as novas medidas de cobrança das refeições, é o fato de que, a partir de agora, muitas pessoas, levarão seus lanches de casa. Já imaginaram a cena?

Farofa, frango assado, coca litro…

Alguns, mais sofisticados, estenderão uma toalha no corredor e farão um piquenique, com direito a cesta treliçada, vinhos e queijos. A dois, pode se transformar num programa romântico.

Outro capítulo à parte diz respeito ao atendimento do pessoal de bordo.

Nunca vi tanta aeromoça – e aeromoço – mal humorada como nos últimos tempos.

Falta-lhes a graciosidade, generosidade e vocação para servir …

Sinal dos tempos, até o glamour das aeromoças foi desaparecendo, à medida que as companhias foram apertando os cintos e os cortes de despesa anunciados.

Tenho saudades, muitas saudades, dos tempos em que as aeromoças eram verdadeiros aviões.

Aliás, aviões que sorriam e conferiam à viagem a atmosfera de um quase conto de fadas.

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