Com o fim do verão

Nenhuma canção no bolso para este fim de verão. Águas de março não existem mais. Tom Jobim se foi – maestro de nossa alegria -, e também se foram as águas que fechavam a estação do Sol, todos os anos, em nossos trópicos. Vieram cair por aqui, impiedosas, cobertas por um manto iluminado de relâmpagos e marchando sobre nós, ao rufar intimidador da maior bateria de trovões de que já tive notícia. Um Olodum de fúria.

Quando trovejava, na minha terra, algum engraçadinho sempre se lembrava de dizer:

— Olha lá… São Pedro já tá arrastando os móveis de sua casa outra vez.

Meu Deus do céu: como tem chovido por aqui! Chovido cântaros. Uma vizinha de minha mãe em São Raimundo, Dona Filhinha, exagerada como ela só, dizia que tinha acabado de cair um dilúvio na cidade.

Seguindo esta linha de raciocínio, caíram vários “dilúvios” nos últimos dias por aqui.

No Brasil de minha saudade, bastava cair um “dilúvio” da craveira dos que têm sido registrados por estas paragens para que se chegasse a notícia de que havia caído uma tromba-d’água lá pelas bandas de Caratinga.

Tromba-d’água!

Na minha inocência de criança, imaginava um elefante gigante deixando sua tromba cair sobre nós.

Onde a tromba do elefante caía, um estrago de filme de Steven Spielberg ia passando diante de nossos olhares incrédulos. Tromba quase mansa, pastiche hollywoodiano em câmera lenta ganhando sotaque tupiniquim.

Levava ponte, casa, pedaço de estrada, gente, porco, galinha, vaca e tudo que fosse criação e que não conseguisse força para fugir, ou que se atrevesse a ficar em seu caminho de devastação.

Era a tromba impiedosa e vingativa do elefante-natureza, ou apenas mais um recado do deus dos trovões e das águas.

Com as chuvas desta semana, fiquei me lembrando do tempo em que eu e meu irmão soltávamos barquinhos de papel da janela de nossa casa, em São Raimundo.

Ficávamos horas e horas, naquele ritual de desfolhar os cadernos da escola para fazer os barquinhos que logo sumiam rua abaixo, levados pela enxurrada.

Não era raro levar uma bronca. Ou um puxão de orelhas.

Caderno custava dinheiro. E dinheiro nunca foi fácil de ganhar, hoje me curvo ao sermão de meu pai. E era mais difícil ainda, para aquela família de posses modestas do interior das Minas Gerais.

Nós, os meninos, éramos autorizados a mutilar apenas os cadernos dos anos anteriores, num gesto de complacência cúmplice.

Até nossos pais entendiam que, em dias de chuva, não podiam faltar os barquinhos de papel singrando a correnteza bravia da enxurrada. Tempos bons, aqueles…

Esta semana, como minha mãe está por aqui, passando uns dias, tratei de pedir a ela que fizesse uns biscoitos de polvilho azedo para comermos com café.

Se azedo é o nome do polvilho, os biscoitos são doces como os anos da infância, como o mel que escorre do bico dos colibris e do ferrão das abelhas.

Em dias de chuva, nada melhor que uns biscoitinhos feitos pela mãe da gente. Pode ser também uns pasteizinhos de carne moída ou de queijo. Umas broinhas de fubá. Uns pães de queijo.

Café com leite é um ingrediente obrigatório nestes dias assim. Dia de chuva sem café com leite é tão sem graça como dançar com irmã.

E um joguinho de bisca ou buraco em família para passar o tempo também cai bem. Dia de chuva não foi feito para o trabalho. É a natureza dizendo para os mortais que está na hora de uma pausa para o estresse.

É tempo de dar um tempo. Relaxar.

A água da chuva vem para lavar as tristezas da cidade e devolver um pouco mais de frescor e dignidade aos homens e mulheres do mundo.

Após uma chuvarada como a desta semana, sinto-me rejuvenescido, novinho em folha.

Sinto-me tão bem como se tivesse acabado de fazer a barba e, ao final, passado uma boa água de lavanda em minha face que já começa a se dobrar ao passar dos tempos.

E é com este espírito de alegria e tranqüilidade, de cabeça e alma lavadas, que lhes escrevo esta crônica de fim de verão.

Bem-vindo seja o outono!

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