A janela mágica

roberto janela 300x260 A janela mágicaA primeira vez que ouvi falar em copa do mundo foi em 1970. Tinha 8 anos de idade e em São Raimundo havia 4 aparelhos de televisão, ou televisores, como chamavam alguns.
Se não me falha a memória, foi o primeiro ano em que se transmitiu alguma coisa em cores no mundo, com aquela Copa  disputada no México.
Nenhum dos quatro aparelhos existentes era em cores, mas estava de ótimo tamanho, mesmo a imagem não sendo lá grande coisa e o vento mudando de vez em quando a qualidade da imagem.
‘Chuviscava’ muito nas telinhas de então.
Na Rua Topázio, na casa de Dona Núbia e seu Noca, passava Bonanza, Forte Apache, Terra de Gigantes, Túnel do Tempo, Perdidos nos Espaços e Viagem ao Fundo do Mar.
Passava um mundo feito de encantamento e magia, que não consigo descrever em palavras, por mais que tente convencer minhas filhas de que antes do videogame, existiu a televisão.

Não dava para colocar a rua inteira na casa dos Novais e Dona Núbia, generosa, abria a janela, para a molecada assistir, ainda que do lado de fora.
Amontoados uns sobre os outros, na ponta dos pés ou sobre tijolos catados em terrenos baldios, nós nos espremíamos por um pedacinho de tela.
Um cotovelo aqui, um ombro se esgueirando ali, ninguém brigava.
Ninguém reclamava, com medo de perder o lugar no futuro.
Um dia, menino de sorte que sempre fui, fui convidado a entrar e me sentar entre os filhos do casal. E nunca mais saí de lá. E nem aquela sala saiu de mim.
Eu já gostava de futebol, claro.
Jogava com os meninos na rua e queria ser Pelé.
Depois quis ser Tostão e Jairzinho, o Furacão. O time montado por João Saldanha era tão bom, que eu não me importava em ser Clodoaldo, Rivelino ou Gerson, o canhotinha de ouro.
Poderia ser até Wilson Piaza, capitão do Cruzeiro do meu coração.

Apesar de muito menino, lembro-me muito claramente de tudo o que me cercava naqueles dias.
Eu era obviamente muito novinho para entender que o país vivia sob uma ditadura militar e que o futebol, o ópio do povo, era uma eficiente ferramenta do regime para acalmar os ânimos. O futebol tem esse poder, pacifica e inflama.
E, no Brasil, não sei explicar o porquê, ganhou contornos muito diferentes mesmo dos lugares onde a paixão pelo esporte é igualmente inexplicável.

Lembro-me do foguetório a cada vitória, dos relatos no radio e do burburinho na mercearia, os adultos recitando jogadas, cantarolando gols que nem todos viram, mas ouviram pelas ondas do rádio.
A Copa seguinte eu veria em casa, praticamente sozinho, num aparelho preto e branco de segunda-mão, que tinha o auxílio luxuoso de uma tela degradê, que mais se pareciam a uma lasca do arco-íris.
E nunca mais parei de acompanhar o Brasil nas Copas do Mundo.
A de 1982 foi a que mais doeu, mas foi também a que me deu maior prazer.
O Sarriá é meu Maracanazo, mas é também meu estádio Azteca de 1970, palco da primeira vitória.
E é muito mais.
Só não foi a minha primeira. Isto é que não foi.
Quarenta e quatro anos depois daquele momento marcante em minha vida, o Brasil recebe uma Copa do Mundo e eu não vou estar presente.
Não vou por opção. Muito mais do que isto, não vou por convicção.
A janela da sala de Dona Núbia já não existe mais.
Onde um dia existiu uma casa, existe hoje uma loja de material de construção.

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