O Casal e a Dentadura

Ele era garçom, ela cuidava do lar e eles formavam um bonito casal. Os nomes não importam, vamos chamá-los de João e Antonia. João, muito educado levava às últimas conseqüências o ensinamento de que o freguês sempre tem razão. No restaurante onde trabalhava, ele se desmanchava em cordialidade com os fregueses: “Vou servir agora, senhor”, “Pois não, madame”, “obrigado senhorita”, etc. e tal. Era a imagem da solicitude.

No inicio era assim também com a Antonia. Mas depois de cinco anos de casamento, três filhos, a atenção já havia diminuído: já não ia do trabalho direto para casa encontrar a doce amada. Passava antes na boate da Lourinha para flertar, com as morenas ou para dançar; ou no Bar do Manda Brasa, para tomar umas e outras com os amigos. Mas mesmo assim, continuava amando Antonia, que por sua vez chorava em casa a ausência do marido e a dor de dentes. Dor que a importunava há bastante tempo.

Em 1978, no Vale do Jequitinhonha era assim: a falta de água tratada, a falta de dentistas, a baixa renda da população e a falta de um trabalho significativo de assistência social, por parte do poder público, deixavam o povo com o sorriso comprometido. Mesmo nas famílias mais abastadas, a maioria das pessoas usava dentadura. Dentadura que o povo mais humilde podia comprar na feira: um monte de dentaduras, um espelho e um balde com uma mistura de água e álcool. O banguela escolhia uma dentadura, lavava no balde experimentava, lavava e devolvia ao monte, até encontrar uma que servisse.

A situação mudou um pouco: hoje já não se compra dentadura na feira, algumas cidades já tem água tratada e assistência social, mas a maioria do povo continua com o sorriso vazio. Em Itaobim, ainda pode se ver na rua Floresta uma placa enorme com uma dentadura e uma frase: Dentadura é aqui. Um dia o respeito à vida vai ser maior que a briga para ampliar os teres e haveres. Enquanto esse dia não chega, voltemos ao caso.

A dentadura de Antonia não foi comprada na feira, João mandou fazer no dentista prático da cidade, com todo carinho, livrando a amada da dor de dentes e dando-lhe um sorriso mais bonito. Só não lhe dava razão para sorrir. Cada dia chegava mais tarde em casa e o cheiro de cachaça era maior. Até um dia espancou a Antonia. Foi a gota d’água para o casamento ser desfeito. Antonia voltou para a casa dos pais com mala, cuia e três filhos.

Passaram-se três meses e nada de Antonia atender aos insistentes pedidos de João. Não queria voltar para casa. Um dia, João viu Antonia indo ao cinema com uma amiga e o namorado da amiga. Ferveu de ciúmes e, no dia seguinte, procurou Antonia e deu o ultimado: “Ou você volta pra casa ou devolve a dentadura. Não quero ver você rir para os outros com os dentes que eu te dei”.

Hoje, estão juntos. Têm seis filhos, João parou de beber, continua garçom, educado e prestativo. Antonia ainda deve tomar um ou outro tapa de vez em quando, mas recebe também muito carinho. Dos filhos e do marido. E continua sorrindo pro mundo com os dentes que João lhe deu.

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