Por onde a pá lavra

No balé das palavras vivas, bailam sentidos transitórios, fugazes. O congo, que é nome de país (com inicial maiúscula), é nacionalidade, é língua e é chá, entre outras coisas, e tornou-se também, pela força do dono da língua, manifestação folclórica brasileira, capixabíssima.

Macumba, sem deixar de ser instrumento musical percussivo africano, hoje denomina o próprio ritual, o mesmo que pemba, catimbó e curimba, conforme quer o dono da língua.

Broto já foi elogio pra moça jovem e bonita. Depois o broto virou gata, pitchula, e no funk às vezes tem cachorra.

E as cachorras, nos canis ricos, têm hábitos sexuais puritanos, que quem cria o melhor amigo do homem precisa preservar a raça, garantir preço bom.

Mas amigo vende amigo? Que amigo cachorro. E tem gente que diz que tem mais de 5 mil amigos no Facebook. Mas “Cachorro só é o melhor amigo do homem porque não conhece dinheiro”, vi num para-choque.

Hoje, mulher raspa a virilha. Se fôssemos procurar nas lonjuras, não poderia, porque virilha era coisa só de homem, a área da virilidade.

Pra não escorregar na escada, é bom se segurar nos corrimões. Calma, corrimãos também podem ajudar você a não cair de susto. O dono da língua quer assim. Não diga, irritado comigo, que dono da língua é a mãe, porque o dono da língua é você, falante, e portanto a mãe (língua) é sua também, tá ligado? Olha o respeito com a nossa velhinha sempre novinha em flor.

Sinistro, maluco, mó legal. Aposto que você é dos que calçam bota e também dos que botam calça. E que o seu “pois não” quer dizer sim e o seu “pois sim” quer dizer não. E, se não concordar com tantas conotações, me diga: é verdade que existe burro empacado e paca emburrada? E aposto também que você já embarcou num carro ou num trem, mas duvido que já tenha encarrado ou entrenhado num barco.

A gente é dono da língua, que é uma só, com seus dialetos, o culto e outros, alguns quase (já) ocultos, e também o idioleto, que é o jeito de cada um exercitar o dialeto de seu grupo. Letra de música da pequena lavra deste escrevinhador brinca sem medo da prosaica rima em “ar”: “Minha língua, minha íngua/à míngua eu não vou ficar/ Se a lição tá na palavra/é porque a pá pode lavrar/Palavra sem pá sem lavra/se encrava no vacilar/Na plena antena da pena/ desempeno o meu penar/(…) Triste é quando em plena cena/se apequena o pelejar/Luz da palavra mais plena/ desempena o meu penar”.

Então, de fato, do tato ao banho de gato, no ato e no entreato, brincadeira de língua comporta farta intenção.

Jornalista e escritor, Mestre em Estudos Literários pela Ufes

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