Bangalafumenga

– Bangalafumenga.

O palavrão soa contundente, contudo vazio de significado. Feito um búzio soprado sem vento, desvozeado porta-voz em meio a nevoeiro. Por isso barco nenhum se faz ao mar.

É que o palavrão, impregnado d’áfricas, passa deslido, não deslindado. Lindo.

Mas a dor fica no ar. Panlinguística, gestoêmica na amplitude de suas ondas – pra quem é de ouvir de ouvido fundo, da idade do mundo. E cachorro, mesmo sem dono, que orelha e olfata mais de 30 vezes mais do que gente, então agora gane, intrujado por compaixão no lamento do deserdado perdido tão longe de casa.

Noiadão, acordou da noite desdormida e vai de calundu, meio banzeiro, caçando entreveros e ingrizias. Mas esses negócios de bangalafumengas, de quizílias e de ingrizias são só reminiscências vazadas de chofre do coité do mano em fogo, em foco, sob a caloria da pinga ruim demais, da vida de menos, da grana curtinha feito um beicinho de pulga – nem pra uma pedra de 10 pra fumar. E, naquelas noias, o ancestral africano se reteza de novo, como que outra vez sob o látego, sob o tráfico, sob o fétido dos cortiços e das dívidas da madrasta história.

É um redemoinho, com setecentos capetas dentro, girando o cristão por entre as buzinas dos carros de tantas cores ao sol. E é um trancetê, um tanto capoeira, um quê de cateretê, queria ver como é que fazia se fosse tu, malandro, sem um manozinho só, de sangue ou de alma, que desse uma demão, que rogasse um valha-te quem o possa.

E é então que de vermelho se banha, começa a sentir que voa, que se alevanta, que se alivia. Leva de volta, pra Mãe África, como último congelado quadro do seu thriller de noia sem grana nem pra uma pedrinha só, a imagem boa dos olhos de uma tal mulher que nunca saber pudera se tão linda flor ente da Terra era, mesmo, ou se o espera agora na Aruanda, a banda dos orixás, onde cachoeiras e florestas e pedreiras nunca haverão de se acabar.

Azeviche materiazinha que foi gente agora boia, já desmorada de egum, no mar que motorista vê da avenida Beira-Mar, na água suja que não é das pratas nem dos ouros de Iemanjá. E tome pedra e pau, e pinga, e rua com apelido de rua do pó, e vamo que vamo, que a onda é causar.

E quem haverá, com tanto traficante pra fornecer pra ficante, e droga de doutor e de dono de bar, com tanta estranha boca suja de substâncias pra beijar, na balada, pra nunca mais se lembrar, quem, me diga lá, quem haverá de querer saber que bangalafumenga só quer dizer joão-ninguém?

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