Carta a “Vovó Mayra”

Prezada “Vovó Mayra”:

Tenho visto cartazes seus, pregados em postes. Peço licença, portanto, para perguntar alguns detalhes a respeito da sua especialidade. O seu material diz o seguinte: “Faz e desfaz qualquer trabalho. Traz a pessoa amada aos seus pés, em sete dias”. Omitirei seus números de telefone, para lhe poupar um súbito quadro de demanda reprimida.

Acredite, não sou movido por sentimentos menores. Mas a gente vê de tudo, na tv, nos jornais, nas revistas, e mesmo nas praças públicas. Consultores prometem transformar o meu botequim de banana numa lustrosa, vistosa e rentável empresa, em dois tempos.

Imagine a Vovó que um raizeiro já sacudiu diante do septo do meu cético nasal uma poção supostamente capaz de me tornar um sujeito não apenas super bem-dotado como também priápico fulltime. Aos 60 anos! Preço? “Uma é cinco, três é 10”. Compreenda, tive de recusar. Imagine o trabalho que o meu alfaiate teria para esconder, do público, o que até hoje tem, com perdão da imodéstia, brilhado em privado.

Então, me diga, por favor:

A senhora faz trabalho de moralização de administrações públicas? É capaz de desentortar o caráter de um sociopata que sonhe em entrar na política só para se locupletar, delírio que traz da infância, quando roubava brinquedos e usava o talento de coleguinhas, sem pudor nem remorso, pra conseguir colar e passar de ano? Consegue fazer um racista compreender que o infeliz é ele, e não o discriminado, já que é o seu próprio seu coração analógico que não dispõe do hardware necessário para reconhecer, no outro, um irmão, e então com ele celebrar a vida?

Quanto a trazer “a pessoa amada a seus pés”, como é que a senhora faz para atender ao pedido sem deixar de respeitar a escolha do outro, o novo amor da outra pessoa? E, mesmo em caso de total harmonia, não daria para a senhora levar o (a) amado (a) ao coração do (a) contratante, em vez de aos pés? Pra que é que eu ia querer ter aos meus pés a mulher que tanto amo, respeito e por cuja presença tanto anseio? Não tinha aí um jeitinho, nem que pagasse algum por fora, de fazer com que, em vez disso, nossos corações se encantassem e nossos olhares se acasalassem feito canarinhos na primavera?

Ah, em tempo: a senhora poderia dar um “Del” no toc-toc dos saltos altos nas calçadas e nos corredores de edifícios comerciais e, principalmente, residenciais? Aí, Vovó, ia ser nicho novo, um hype, sucesso total. Logo, logo, quem quisesse dispor de sua consultoria ia ter de procurar lá no seu office avançado, em Miami.

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