Campeonato de pedrada

Fervilha a feira, numa quinta. Entre cestas, bancas, carrinhos, sacos e sacolas, pregões, cores e odores de toda ordem, naquela organizada aparente desordem.

– Laranja natal e lima doce. Só o limon é que é azedo – apregoa o italiano.

– É o luxo, é o luxo, freguês, aqui na minha mão – rebate o peixeiro.

Vozes de diferentes timbres e intensidades se cruzam pelo ar, de barraca a barraca, de lado a lado do corredor de fregueses que olham, que tocam, que experimentam, que compram, que não compram.

Mas um pregão destoa daquele universo sonoro de toda semana. E é por isso que chama a atenção.

– Campeonato de pedrada. Campeonato de pedrada.

O autor da frase é um vendedor debochado, cara de falso malandro, algo de perverso no jeito.

– Quando é o próximo campeonato de pedrada? – insiste, perverso.

Só agora identifico o alvo da maldade, um homem moreno (moreno mesmo, não é eufemismo racista para evitar dizer negro, não), sessentão, o cabelo já grisalho, olhar tranqüilo.

Enquanto o homem moreno, alvo do chiste, parece refletir se vale a pena responder, o feirante olha em torno, procura olhos cúmplices que o incentivem a prosseguir na brincadeira. Encontra o meu olhar, mas não a cumplicidade. Ainda assim, volta à carga.

– Quando é o próximo campeonato de pedrada lá no hospício, no Adauto Botelho?

Agora já conseguiu seu objetivo: expor, ridicularizar, estigmatizar o homem moreno.

O vendedor já tem pequena platéia. O homem moreno percebe, se sente no dever de dar alguma resposta.

– Já passei um tempo lá, mesmo. Problema de família. Faz uns 20 anos.

O feirante não está satisfeito ainda. O homem moreno é claramente mais sereno que ele, mais temperado. E isso parece causar estranha inquietação no algoz. O feirante volta a fazer perguntas, aumenta o tom de voz, sempre olhando em volta, convocando mais platéia, quer saber detalhes de gente doida, aluada, louca. Vai repetindo doida, aluada, louca, doida, aluada, louca.

A insistência do feirante parece encontrar sintonia na doideira da pequena platéia. Medo, prazer, constrangimento, outros sentimentos também vão aflorando. O homem moreno, em sua serenidade, conta alguns fatos. Gente arria as bolsas no chão, se encosta em barracas, começa a se formar um bolinho.

– Já teve problemas com gente lá, foi atacado, correu perigo? Tinha muito doido engraçado? Pode contar alguma coisa pra divertir o feirante e seus afins?

Problema sério mesmo nunca teve com colega nenhum de hospício, relata o homem moreno, consciente de, e aparentemente conformado com, seu status de ex-interno de hospital psiquiátrico. Só uma vez brigou com uma turma lá.

– Por quê? Por quê? Conta, conta.

O homem moreno dá um tempo, pensa, relata devagar.

– Pra defender uma colega. Não gosto de injustiça.

Querem saber mais. Alguns parecem estar em situação pré-orgástica. Mas o homem moreno, que já pisou do lado de lá da linha e voltou, parece decidido a lhes dar um anticlímax, a não consentir no prazer daqueles loucos amadores. Já foi maluco de carteirinha mas não é bobo nem burro. Já passeou pelo “selvagem coração da vida”.

– Não queriam deixar ela brincar com a gente.

– Ah, é, é? Que doidinhos malvados. Por que não queriam deixar?

Já tem gente quase babando, olhinhos brilhando de concupiscência.

A voz do homem moreno parece ter inteira consciência da força da frase que vai proferir. E profere, com toda a naturalidade de que é capaz.

-Só porque ela fez o neném de um mês ensopado com batata e deu pro marido jantar.

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