Um artista liberto

Capa CD Zeca Baleiro O amor no caos Vl1 002 Um artista libertoZeca Baleiro está em seu melhor momento como compositor. Suas letras se prestam a contar um conto com começo, meio e fim. A história é relatada de forma clara, forte. O ouvinte se prende ao início e acompanha atento o desenrolar da trama. A curiosidade desperta e aguça o entendimento da melodia e da harmonia que ali estão, esgueirando-se ouvidos adentro, como se viessem de um áudio-livro-musical.

Baleiro é pop por natureza. Seus arranjos incidem diretamente na melodia que embalará o entendimento das palavras… ou melhor, é mais do que isso, sua música acende o fogo que acalora e alumia os termos de seus versos.

Assim é nas duas primeiras faixas do CD O Amor no Caos – Volume 1  (Saravá Discos; o segundo volume foi lançado recentemente): “Todo Super-Homem” e “Ela Nunca Diz” têm letra e música só de Zeca. Assim também é em outras duas músicas só de sua autoria: “Saudade Dá” e… bem, da outra eu falarei ao final.

Baleiro tem formas inteligentes de criar os arranjos para suas músicas, e ele as demonstra ao cercar-se de instrumentistas que o entendem através de um simples respiro da alma. E tocam bem! Com empolgação! Improvisam com liberdade… Sim! É isso! A obra de Zeca é libertária!

Como costumo fazer, nomeio agora o time que joga por música com Zeca Baleiro: Adriano Magoo (piano Hammond, piano Rhodes e acordeom), Fernando Nunes (contrabaixos acústico, elétrico e fretless), Kuki Stolarski (bateria e percussão), Pedro Cunha (teclados e synths) e Tuco Marcondes (violões e tambura – juro que não conheço este instrumento). Com eles, Zeca dividiu a criação da maioria dos arranjos do álbum.

Outra grande virtude de Zeca Baleiro é saber escolher seus parceiros com sabedoria – sejam eles pouco conhecidos, famosos ou não. Todos têm a noção exata de que estão próximos de se tornar não apenas um letrista ou um melodista de Baleiro, mas, sim, um autor que poderá figurar como parceiro de canções marcantes na obra de Zeca Baleiro.

Com “O Linchador”, Zeca juntou-se a Fernando Abreu e a Rincon Sapiência e recriaram o cruel desfecho do que se vê nas ruas… um linchamento! Os versos são como um rabo de arraia na cabeça dos bacanas que matam, enquanto fingem nos (des)governar.

Sobre letra de Joãozinho Gomes, Zeca compôs “Dia Quente”, uma história poética e plena de delicadeza.

Sobre versos descritivos de Cynthia Luz (ela canta junto com Zeca), Baleiro criou “Mais Leve”, um pop maneiro.

Por fim, “Outra Canção do Exílio” (ZB). E é assim, desvendando o que vai pela alma de Zeca Baleiro, que se pode imaginar um extraordinário e delirante círculo de fogo a relampejar suas músicas. Sintam só os versos que concluem a canção e também o ótimo CD “O Amor e o Caos – Volume 1”: “(…) não permita deus que eu morra/ sem que eu volte pra perto do menino que fui/ que não falte a centelha velha do amor, da canção/ que não falte sangue, ar e alegria/ pra que eu veja a sempre nova luz do dia/ quantos dias suporte o meu coração”.

Meu Deus!

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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