Woodstock

woodstock WoodstockQuando eu era garoto, para desespero de meus pais, decidi ir ao Festival de Woodstock. De moto. Sim, eu sei que é loucura. Um moleque, menor de idade, sem carteira e sem dinheiro, viajar de moto até os Estados Unidos. Mas era o espírito da época, pra não dizer outra coisa.
Bem, consegui chegar até a praia de Bombinhas, em Santa Catarina. Só não fui adiante porque furou o pneu da moto e me encantei pelos olhos de uma alemoa de Blumenau que estava acampada numa barraca… Enfim, fui atropelado pelos acontecimentos.
Woodstock eu vi depois, no cinema. O disco, escutei até furar. Eram três LPs. Decorei todas as letras e solos de guitarra. Cheguei a pensar em arrancar os dentes da frente, como fez Richie Havens pra poder cantar melhor, mas bateu um bom senso. Coisa rara naquele tempo.
Comprei um medalhão enorme com aquele símbolo de paz e amor, pendurei no pescoço e só tirava pra tomar banho. Aliás, um hábito que, na época, estava fora de moda.
Aprendi a mexer com couro e, além de um chapéu, fiz uma bolsa a tiracolo, vermelha, com umas franjas e uma ferradura colada pra dar sorte.
Fora esses utensílios, meu guarda-roupa incluía umas camisetas tingidas com desenhos psicodélicos, duas túnicas indianas, uma calça boca-de-sino, um tamanco de madeira e um macacão de veludo que, segundo os comentários da minha tia, era capaz de andar sozinho.
Deixei a barba e os cabelos crescerem desordenadamente e acredito que aquela revolução, que se passava do lado de fora da cabeça, acabou vazando pra dentro e influenciou o processo de desenvolvimento do meu córtex cerebral. Algumas ideias desconectadas só começaram a fazer sentido recentemente.
Minha mãe dizia que o LSD e todas as outras drogas queimavam os neurônios e que nós seríamos uma geração de estúpidos. Eu hoje olho para o mundo e acho que ela estava com a razão. Em parte. Só não concordo que seja culpa do ácido lisérgico. Nem todos nós consumíamos drogas. E algumas das piores besteiras têm sido cometidas exatamente por aquele tipo de cara que fumava, mas não tragava.
Talvez a teoria da minha mãe não tenha fundamento científico e esse atributo da estupidez seja na verdade um karma coletivo da nossa geração. Vai saber.
Ao mesmo tempo, não sei de onde os mais velhos tiravam essas informações sobre tóxicos. A droga mais pesada que minha mãe experimentou foi a pílula anticoncepcional.
Há pouco tempo, comprei o DVD do filme de Woodstock. Cheguei em casa, botei pra rodar e não consegui parar de assistir.
Quando me dei conta, estava chorando. Não sei explicar direito. Foi uma mistura de sentimentos. Tudo o que poderia ter sido e que não foi… Não, não estou falando da alemoa de Santa Catarina. Tô falando dessa merda de mundo que a gente criou e está deixando de herança para os nossos filhos. Sem paz e amor.

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