Entrevistado: Wilson Pereira

img01 711360350 Entrevistado: Wilson PereiraWilson Pereira nasceu em Coromandel, Minas Gerais, em 1949. Viveu sua infância e juventude em Patos de Minas, de onde mudou-se para Brasília, em 1976. Professor universitário e assessor legislativo da Câmara Legislativa do Distrito Federal. É formado em Letras e Mestre em Literatura Brasileira, pela Universidade de Brasília.

 

Publicou os livros de poesia Escavações no Tempo (1974), Menino sem Fim (1988) e A pedra de Minas, poemas Gerais (Brasília, LGE editora, 2002). Aos 60 anos de idade e completando 35 do lançamento de seu primeiro livro, o poeta reuniu alguns parceiros musicais e comemorou a data com um espetáculo poético-musical no Feitiço Mineiro, em Brasília.

 

Além do show, foi realizada uma exposição com fotografias, poemas traduzidos e recortes acerca da obra do poeta.

 

Wilson Pereira é o convidado dessa edição de nosso Papo 10:

 

1 – O senhor é uma pessoa que possui uma formação acadêmica e política bem estruturada. Como foi esse seu encontro com a Poesia?

– Por volta dos 14 anos de idade, ganhei, de um irmão, uma coleção de livros intitulada Conheça Seu Idioma, na qual havia muitos poemas, contos e crônicas. Da leitura dos poemas surgiu em mim um sentimento poético, um gosto e uma necessidade de poesia que buscava preencher-se com a leitura sempre de novos poemas. Em seguida, recebi a orientação do professor Altamir Pereira da Fonseca, que me indicou e me emprestou livros de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Manuel Bandeira e de tantos outros poetas nacionais e estrangeiros. Depois fui formando, aos poucos, minha biblioteca particular, principalmente com livros de poemas.

E assim, num certo dia, já nutrido de poesia, nasceu o poeta em mim. Escrevi meus primeiros poemas quando tinha 16 anos de idade. E não parei mais. Mesmo com pouco tempo para me dedicar à literatura, sempre procurei ler poesia, escrever poesia e… viver poesia.

 

2 – O senhor nasceu mineiro e alçou vôos para Brasília por motivos de trabalho. Esse advento influenciou-lhe e contribuiu para suas atividades literárias e poéticas?

Quando me mudei para Brasília, em 1976, com 26 anos de idade, já havia publicado meu primeiro livro de poemas, “Escavações no Tempo”; já havia participado de alguns encontros de poetas em Minas Gerais e já tinha um razoável conhecimento de literatura. Mas Brasília me proporcionou novas e enriquecedoras experiências profissionais e literárias. Conheci muitos escritores de projeção nacional, participei de encontros e eventos culturais e literários, ganhei alguns concursos de poesia e fiz o curso de Mestrado em Literatura Brasileira, na Universidade de Brasília. Também na capital federal, ingressei no magistério superior, lecionando Língua Portuguesa e Literatura Brasileira.

 

3 – No poema “Apresentação” está escrito: “Feito canto eu me apresento, menino sem fim.”- O menino continua lírico e latente até hoje, poeta?

– Sim. O tema da infância é constante em minha poesia. Além do livro de poemas intitulado Menino sem Fim, publicado em 1988, com grande parte dos poemas sobre o tema, tenho outros livros que buscaram inspiração no menino que fui ou que imaginei. Publiquei o livro de contos Amor de Menino, com dez contos, e em todos eles o personagem é um menino. Tenho ainda os livros infantis Pé de Poesia, Riozinhos de Brinquedo e Vento Moleque cujos personagens são também meninos. Há, por fim, o livro, também para crianças, recém-editado, A Rãzinha que queria ser Rainha, em que a personagem é uma rã menina que desejava se tornar modelo. Em outros livros também publiquei poemas com a temática da infância, como se pode notar nas páginas da antologia poética Pedras de Minas – Poemas Gerais (reunião de três livros editados mais um até então inédito). A infância é mesmo a verdadeira pátria da poesia. Ou como concebeu o poeta francês Charles Baudelaire: “La poésie c’est l’enfance retrouvée”.

 

4 – Quando começou a escrever, tinha em mente atingir com belas palavras um público específico?

Inicialmente, eu escrevia apenas para expressar meus sentimentos, minhas emoções, para dar expressão a idéias que julgava poéticas. Enfim, escrevia para mim mesmo. Mas logo veio a necessidade de mostrar os poemas a amigos, a professores e poetas de Patos de Minas, cidade onde vivi minha juventude. Em 1972, enviei um conjunto de poemas ao concurso Fernando Chinaglia, da União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro, e fui laureado com uma Menção Especial. Na oportunidade recebi de escritores consagrados comentários muito favoráveis aos meus poemas e incentivo para publicá-los.

 

Em 1974 saía, então, o primeiro livro, Escavações no Tempo. Predominam nesse livro poemas de temática social, além de alguns sobre o amor e outros sobre bichos e animais. Só muito depois é que comecei a escrever e a publicar textos específicos para crianças. O meu primeiro livro infantil, Pé de Poesia, data de 1995.

 

5 – Percebe-se em seus poemas uma atração telúrica e sutilmente infantil ligada à vida, à natureza, aos sonhos, à magia. É daí, que vêm suas mais secretas inspirações? Dessa fonte que nunca seca, do íntimo de todo ser humano?

O eu, com suas emoções, seus sentimentos, suas angústias e ansiedades, suas paixões e seus sonhos, é a fonte genuína da poesia lírica. Mesmo as dores coletivas, os problemas sociais têm de ser filtrados, depurados pela sensibilidade do poeta. Poeta não é quem sente ou pensa diferente, mas quem escreve de forma diferente, pessoal, criativa, o que as pessoas sentem. A matéria-prima da poesia é a linguagem, são as palavras, mas palavras eivadas de significados, de vida. Eu tenho um poema que termina assim: “Poeta é quem dá susto nas palavras.” A poesia tem de surpreender pelo inusitado das palavras, que se arranjam em metáforas no poema. Eu busco encontrar uma linguagem que seja capaz de causar o impacto poético, mas sem deixar de lado a essência lírica, o significado de vida com o qual possa se identificar, de algum modo, o leitor. É, portanto, indagando o mundo em mim, ou procurando-me no interior de mim, que encontro meus poemas. Permita-me citar outro verso de minha autoria:

 

“Desde que não me conheço é assim: eu ando sempre atrás de mim.”

 

6 – Ao falar como poeta, como analisa o movimento literário no Brasil?

A literatura brasileira atual é bastante rica e versátil. Tanto em termos de quantidade quanto de qualidade.

 

No campo específico da poesia, há um grande número de publicações, muitos autores novos lançando seus poemas, alguns grupos procurando levar poesia “aonde o povo está”, com declamações em bares, em praças, em eventos. Mas essa coisa está acontecendo de forma meio desordenada, em pequenos grupos, esporadicamente. Apesar do grande número de poetas e escritores, não há mais os movimentos literários, como no passado, para congregar autores em torno de uma proposta estética, como ocorreu com o Modernismo, a Geração de 45, a Poesia Concreta. Mesmo os remanescentes da chamada Poesia Marginal, último movimento com alguma linha de procedimentos poéticos comuns, estão hoje dispersos, cada um publicando seus livros, sem muito alarde. Pode-se verificar o mesmo com os outros gêneros literários: o romance e o conto, principalmente. Há bons romancistas, bons contistas, mas não há uma tendência estética apontando uma orientação estilística, um esboço estético de modo geral. Mas, enfim, creio que essa ausência de movimentos artísticos e literários está ocorrendo não apenas no Brasil, mas também em outros países. Ademais, a literatura carece hoje de uma crítica atuante e, especialmente, de espaço em jornais e revistas para sua divulgação. Assim, a literatura que se produz por aqui, além de ser preterida, devido às dificuldades para ser editada e divulgada, vai sendo abafada pelos best seller.

 

7 – No poema”Saída”, o poeta escreveu que, na hora extrema irás sair de si e viver num poema. Esse momento chegou?

A “ hora extrema” pode conter algumas conotações, mas acho que pensei principalmente na morte. A “hora extrema” sendo interpretada como o final da vida… Assim o poema seria a expressão poética da idéia de que poeta não morre definitivamente, porque permanece vivo na sua obra. Sendo assim, não chegou para mim o momento e espero que não chegue logo. Que me deixe tempo ainda para escrever mais poemas e colher os frutos poéticos da vida.

 

8 – O senhor tem algum projeto poético ainda não realizado que gostaria de pôr em prática no futuro?

O meu projeto é continuar escrevendo e publicando livros. Mas para o poeta é importante que sua obra seja lida, que se torne conhecida. No Brasil, sou um poeta já com bom trânsito nos meios literários e tenho conquistado mais leitores a cada dia. Faço parte das duas antologias poéticas mais importantes publicadas ultimamente no País: Antologia da Nova Poesia Brasileira, organização de Olga Savari, 1992, e A Poesia Mineira do Século XX, organização de Assis Brasil, 1998. Os meus livros infantis tem sido lidos em escolas, adquiridos por programas de governo, com boas tiragens. Estou, agora, na expectativa de que o livro infantil A Rãzinha que Queria ser Rãinha possa ser editado em outros países. Há negociação da Editora (Callis, de São Paulo) nesse sentido. Se der certo, será a minha chegada ao mercado exterior, e a possibilidade de que se abram outras portas para a minha carreira literária alçar vôo internacional.

 

9 – Segrede-nos qual poema é o preferido do poeta Wilson Pereira?

Difícil citar um poema predileto entre mais de quatrocentos, entre inéditos e publicados. Acho que vou deixar outros poemas magoados, pois é como declarar a predileção por um filho em detrimento dos outros. Mas, para não deixar sua pergunta frustrada, vou citar o Poema “O Menino”, um dos que mais me agradam, o que justifica a minha preferência ( e recorrência) pelo tema da infância.

 

10 – O poeta concilia harmonicamente as atividades de professor e assessor político com a literatura ou há divergências saudáveis entre elas?

Acho que consegui conciliar em parte minhas atividades profissionais com a de escritor. Digo em parte, porque mesmo trabalhando muito, principalmente quando era professor (deixei de lecionar há alguns anos) e trabalhava de manhã, à tarde e à noite, nunca deixei de escrever. Mas, por outro lado, sei que se tivesse mais tempo disponível para me dedicar à literatura, poderia ter produzido mais e talvez tivesse conquistado mais reconhecimento como poeta. Mas como é muito difícil poder viver de literatura no Brasil, não houve outra forma senão escrever nas madrugadas, nos finais de semana, em momentos furtados ao sono ou à convivência com a mulher e os filhos.

 

 

 

10 Poemas

 

 

O Gato Quântico

 

O gato quântico

 

solta-se do gato

 

romântico

 

que há em si…

 

desdobra-se

 

num salto elástico

 

e descobre-se

 

gato galáctico

 

e pensa decifrar

 

o enigmático

 

ser gático.

 

 

 

O MENINO

 

O menino em mim

 

ainda se comemora:

 

há um gosto de vento

 

nos ombros,

 

um cheiro de amoras

 

no tempo,

 

um engenho de sonho

 

nos olhos;

 

 

uma varanda

 

namora o silêncio

 

das horas que caem.

 

 

O menino em mim

 

ainda cresce

 

e me leva embora.

 

 

APRESENTAÇÃO

 

Vou de-ser

 

do que sou

 

 

sub´ir

 

ao invento

 

 

na orla do tempo

 

além de mim,

 

 

feito canto

 

eu me apresento

 

 

menino sem fim.

 

 

INFÂNCIA

 

Eu fui meu

 

como o espaço

 

era do pássaro.

 

 

Eu me soltava

 

em cantos e plumas

 

pelos campos da manhã.

 

 

Eu brincava comigo:

 

eu era eu

 

e o meu amigo.

 

 

Eu me falava baixo

 

para não espantar

 

o meu silêncio.

 

 

Eu era pequeno

 

e imenso.

 

 

 

O PEQUENO PROTEGIDO

 

O que eu trouxe

 

da infância comigo

 

está em mim

 

quase vencido.

 

 

Como um herói

 

desfeito em palavras

 

guardei pouco

 

para ser vivido.

 

 

Mas não me disse bem,

 

pois pouco me sei;

 

o que sôo é mais

 

o que de mim inventei.

 

 

Na verdade o menino

 

não cresceu comigo:

 

 

minha mãe o tem em si,

 

pequeno e protegido.

 

 

FUGA

 

O menino fugiu-me

 

sem que eu visse

 

por onde:

 

 

foi atrás da estrela caída,

 

foi colher uma flor do campo

 

e se perdeu de mim

 

que andava tão longe?

 

 

Ou o menino

 

subiu pelo arco-íris

 

pensando que era ponte

 

entre mim e o horizonte?

 

 

Ou o menino

 

fugiu-me

 

 

com medo de ficar grande?

 

 

VISÃO

 

 

Da janela

 

eu me vejo

 

 

indo.

 

 

Vou em mim

 

e me espero:

 

eu

 

vindo

 

me vejo

 

na janela.

 

 

 

AMBOS

 

Outro dia

 

passando por mim

 

 

eu quase me reconheci

 

 

mas íamos

 

ambos apressados

 

 

um para o futuro

 

o outro para o passado.

 

 

FAGULHAS

 

 

Vou incinerar este dia

 

com o fogo do crepúsculo

 

 

e depois

 

com sôfregos músculos

 

vou escavar sob as cinzas

 

um sonho

 

e outros aindas.

 

 

SAÍDA

 

 

Resolvi meu dilema:

 

 

antes do fim,

 

na hora extrema,

 

vou sair de mim

 

e viver num poema.

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